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El Tío
A imagem que vocês acabaram de ver não é a de um diabo, mas sim a de El Tio. Ela é uma das milhares que estao na mina de Potossi, Bolívia. Existem umas cinco mil minas na "Montanha de Prata", e em cada uma existe uma imagem similar a esta.
Segundo o péssimo guia que me acompanho na descida a mina, a historia é a seguinte ...
Os espanhóis foram espertos o bastante, durante a "colonização", em não entrar em guerra com os impérios com que se deparam aqui na América, uma vez que algumas cidades tinham populações muito superiores as maiores cidades européias. Eles agiam da seguinte maneira, derrubavam o poder local e se apropriavam de toda a estrutura do império pré existente. Assim eles dominaram os impérios Inca, Maya e Asteca.
Quando chegam a Potossi, o império Inca já fazia extração de prata da montanha. Tomando o poder local, eles escravizaram a população, e a prata passava a ser extraida para a coroa espanhola. Houve um levante dos indígenas, e os espanhóis, se valendo da cultura do terror, colocaram a imagem de um "diablo" em um dos túneis da mina. Apavoraram os indígenas que se rebelaram com toda aquela lengalenga católica, de que se eles não trabalhassem direito, o "diablo" iria castiga-los. Porem, para a melhor compreensão dos indígenas eles não usaram essa expressão, "diablo" e sim deus, desta forma, era um deus que iria castiga-los caso eles não trabalhassem ( não tenho detalhes sobre a cultura Aimara para saber se na concepção de mundo deles haviam entidades do mal ).
O detalhe curioso é que, na língua Aimara, não existe o som do fonema /d/ e este foi substituído por /t/, então surge El Tio.
Os indígenas assustados com as estórias dos espanhóis começaram a adorar a imagem, fazendo oferendas e rituais na sua frente pedindo para que El Tio não fizesse nenhum mal a eles. Isso acabou se tornando parte da cultura dos mineiros, e se manteve no passar dos séculos..
Algumas alterações na tradição ocorreram no passar dos tempos, mulheres não eram aceitas dentro da mina por exemplo. Hoje, em função do turismo ( portanto meus caros, estamos falando de grana num lugar miserável ) as mulheres podem entrar.
Hoje, assim que você desembarca do ônibus em Potossi, rapidamente estará cercado de supostos agentes turísticos. Isso só é bom porque tu já começa a barganha de preços ali mesmo, e é claro, eles são cordiais o suficiente para carregar a bagagem das damas.
Foi assim que entrei em contato com o picareta que me indicou um hotel de um dólar e meio, o local para se comer um café da manhã a menos de 50 centavos de dólar. Ë claro que ele também era o guia que iria me levar para dentro da montanha de prata, meu real objetivo nesta parada.
Deixa eu fazer um parêntese aqui. A Cidade de Potossi lembra a nossa Ouro Preto, só que com fachadas não tão bem preservadas, muitos cartazes políticos e má conservação são nítidas durante o dia, durante a noite é uma cidade belíssima, com algumas quebradas que realmente não são convidativas a um passeio solitário. Uma coisa que não posso deixar de comentar é o desagradável habito boliviano de se comunicar no transito com buzinadas. Também desagradável é o fato de que as calçadas são muito estreitas e dessa forma você acaba caminhando pela rua, e os sempre simpáticos e pacientes motoristas bolivianos não pensam duas vezes em sentar a mão na buzina pouco antes de quase te atropelar, solicitando de forma cordial que você sai da frente e de passagem para seu veiculo.
Voltando a mina ... numa manhã bem cedo encontramos o maldito guia e ele nos levou a mina. Na entrada dela existe um expressivo comercio local, composto basicamente de camelôs, que vendem dinamites a quem estiver disposto a comprar ( sim, comprei e explodi uma ) folhas de coca, um cigarro lazarento feito de tabaco, cravo, coca e mais outras coisa que vinha num maço mais lazarento feito com uma pagina de caderno ( não, este cigarrilho não da barato ) vende-se também uma bebida alcóolica fortíssima, infelizmente não me lembro do nome dela, um destilado de 98 graus etílicos ... isso mesmo, mais forte que o álcool zulu. Comprei coca e os cigarros, outro mano o goró ... o guia fica te enchendo o saco para comprar tudo ( rapidamente se percebe que ele é associado a alguns camelôs e te empurra para eles ), mas deu para dar um chega para lá no elemento e dar um rolê em paz..
Entramos na mina. D U C A R A - L H O !!!! é uma experiência interessantíssima descer 400 mts dentro de uma rocha, aquele breu que bota qualquer deth metal para correr, iluminávamos o caminho com umas carbureteiras de mão bem fajutas, duas param de funcionar durante o caminho o que de certa forma tornou as coisas mais divertidas. O ar é denso, e tem muita poeira no ar, todos estavam com as bochechas deformadas de tanta coca que colocamos na boca ... fomos caminhando, descendo por algumas cordas, encontramos alguns mineiros trabalhando, e no fim de tudo, chegamos a mora de El Tio.
O picareta do guia começou a querer fazer aquele climinha de terror, sabe como é, contando a estória de El Tio, fazendo climinha e tal. Pelo menos foi engraçado. Depositamos uns punhados de folhas de coca aos pés do capeta, coloquei um cigarro na sua boca, jogamos o goró por cima do bicho e tacamos fogo. A Imagem realmente foi sensacional, o capeta em chamas, com seu cigarrinho no canto da boca. Fiz até um pedido, o de que a minha Portuguesa de Desportos fosse campeã de qualquer coisa, mas o mais endiabrado Castrilli fudeu nossa vida naquele mal contado 2 a 2 com o Corinthians.
O goró é quase alucinógeno, bebi 2 tampinhas do bagulho e já começava a ver uma explosão de luzes vermelhas e amarelas na escuridão, aquela impressão de que a parede esta respirando ...
No fim, deixamos o goró com os mineiros, que se reúnem 2 vezes em frente da imagem executando o que fizemos, só que a serio. Estas reuniões não são abertas a turistas.
A condição de vida dos mineiros é péssima, com uma expectativa de vida ultrapassando um pouco os 30 anos. Existe um bom numero de viúvas dos mineiros que ficam reunidas na saída da mina, revirando o cascalho despejado lá, entoando um cântico mórbido, tentando encontrar alguma prata, é uma imagem muito estranha.
Quando saímos da mina, com a ajuda do maldito guia ( uma pena que ele não foi junto ) explodimos uma dinamite ... muito legal. Queria trazer uma para casa, teria um ótimo uso para ela em São Paulo, mas como trabalho com carga área sei dos riscos de transportar esse tipo de material, ainda mais sabendo que eu estaria no mesmo cargueiro que a tal banana.
Ë isso ai, só uma curiosidade, o Rio da Prata no Brasil, leva esse nome graças a prata contrabandeada de Potossi pelos portugueses.
Um abraço, e até mais.
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