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Leitura Alucinógena



Pois é, caro leitor, aqui estou eu, em minha primeira coluna jornalística, a fim de impregnar este conceituado informativo virtual, falando um pouco de algumas cismas, manias e implicâncias pessoais, além de algumas experiências vividas, que tenham a ver com o meio musical e a cultura da informação em geral. Sim, porque nestes tempos de revolução, quem não cultua informação, dança; é como não saber mastigar um bife, conseguir dar um nó num sapato ou amar um outro alguém. A curiosidade pode ter matado muitos em outras épocas, mas a verdade é que, sem ela, fica cada vez mais difícil se dar bem no emaranhado de novidades sempre mais presentes em nossa existência - vide a maior facilidade, habilidade e o domínio que os mais jovens possuem em relação a qualquer inovação no campo da informática.

Escrevo isso não como um sutil imperativo, mas para aliviar a angústia que sinto ao levar alguns cutucões do tempo. Percebo que ele está acelerando num ritmo mais intenso, revoltado pelo fato de não conseguir dar abrigo a essa infinita sequência de sucessos promovida por nós, animais, que possuímos a incrível capacidade de destruir o que foi construído na mesma proporção em que nos reproduzimos.

De um modo mais singelo e orgânico, esse sentimento de estreiteza também fez parte da minha adolescência no dia em que um grande amigo colocou em minha vitrola um disco da banda inglesa The Damned. Para mim, não passava de um grande álbum, de um artista pop qualquer, que continha nove lindas faixas pelas quais eu imediatamente me apaixonei. Obcecado por aquelas melodias góticas e a nítida influência do punk rock europeu, me droguei com centenas de doses da bolacha fantasmagórica, deixando de lado minha NewRockCollection e meus discos da odiada banda canadense Rush, indispensáveis para matar saudades até hoje. Louco para saber mais – ou melhor, um pouco - sobre o grupo, comecei a procurar em alguns lugares, e nada. Era impossível achar algum material dos caras em lojas como “Gabriela” ou “Breno Rossi”, as mais acessíveis para mim, que, na época, morava em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Em revistas de rock, muito menos. Nada se falava a respeito desses malditos! Apesar de um pequeno desânimo, quando tinha oportunidade, matava aula e dava um pulo no Centro, virando pelo avesso todos os sebos da Sete de Setembro (graças a um deles, encontrei minha cópia do “Phantasmagoria”e pude devolver o disco emprestado após meses…). Num dia desses, conheci o segundo andar da antiga Gramophone, no Shopping da Gávea. Quase tive uma parada cardíaca! No meio de todos aqueles maravilhosos vinis importados – o odor tomava conta do ambiente -, me deparei com um acervo de tirar o fôlego: as quatro fileiras que faziam parte da seção “New Wave” eram recheadas com preciosidades ainda então inéditas em minha vidinha medíocre. Jesus, Fall, Siouxsie, Joy Division, Ministry, Cabaret Voltaire, Front 242, Dead Kennedys,todos eram novidades maravilhosas. Contudo, não eram páreo para a versão picture do clássico “Damned,damned, damned”, o raro “Damned but not forgotten” e a coletânea dupla “Light at the end of the tunnel”, só para citar alguns dos achados (quase toda a discografia deles!!!). Como não tinha condições de adquirir todas aquelas pérolas, tratei de espalhá-las em seções distintas – a de música clássica foi a privilegiada, por ser maior – na expectativa de achá-las numa próxima visita. E muitas vezes, mesmo sem grana,dava um pulinho na loja só para conferir se meus filhinhos estavam bem, e escondia os danados de novo no meio das sinfonias de Bach e Beethoven, como se a cidade inteira estivesse à procura deles. Demorou, mas em alguns meses, todos se encontravam em meu armário.

Hoje em dia, sabe-se, isso faria qualquer adolescente que possui acesso à Internet dar risadas, pois, com um simples clique no mouse e cartão de crédito da vovó, ele pode receber toda discografia da sua banda predileta em casa, certo? Desculpe, acho que me transformei numa espécie de pseudobalzaquianoromânticosaudosista, do tipo que escondia fotonovelas éroticas embaixo do colchão e que ainda manda flores. Divirtam-se !!!


André Nervoso é baterista do Acabou La Tequila e do Matanza
é baixista do 77 Idols e já tocou no Beach Lizards, no Autoramas e até no Los Hermanos (numa única e memorável noite do garage).

 
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