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Leitura Alucinógena

Maio

Me lembro que havia me proposto escrever sobre o primeiro de maio. Foi um feriado, numa segunda se não me engano. Era a primeira vez que ia um comício, uma manifestação da CUT, que também comemorava os 20 anos da grande greve dos metalúrgicos do ABC, e para isso, retornou ao mesmo palco, o estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Já se passaram 28 dias, perdi minhas notas, e muito da minha memória, então, o que poderia ter sido um minuciosos texto, se tornou neste que você está lendo agora. Acordei por volta do meio dia, joguei algo para dentro da caveira, cai no mundo, antes de pegar o ônibus, dei um pulinho no mercado negro, já estava preparado.

Não me alinho com nenhuma das forças de oposição, até por não aceitar doutrinas, mas fui para lá assim mesmo, para fazer numero numa manifestação de opositores a FHC. Também tinha uma curiosidade, quem são estes que acreditam em manifestações como esta. Somando a isso a vontade de ouvir um hip hop, tomar uma cerveja, detonar algo ilícito, e prestar atenção nas idéias.

Lá chegando fui tomado de uma curiosa alegria, varias bandeiras vermelhas sendo agitada, a assassina PM paulista olhando de longe, e todos em festa, menos a PM. E isso me deixou bem, realmente estava me assumindo como um trabalhador, pela concepção marxista do termo.

Basicamente as forças presentes eram a CUT, PT, PSTU, MST, PCO, PRO, o movimento dos sem teto, a pastoral do menor, e mais um monte de siglas que depois de um tempo se tornam irreconhecíveis. Havia uma banca onde todo e qualquer grupo poderia ir lá se inscrever, tendo seu nome anunciado nos falantes posteriormente. Como estava com a minha camiseta do Timor Lese, me inscrevi como representante da USP por Timor ( para dar um caráter político ) e Como representante da Comunidade Psicodélica da Cidade Ademar ( esta sim minha real bandeira ).

Chego, pego uma cerva, e vou para a arquibancada terminar de ler um livro que vocês lerão a resenha em breve.

Tudo foi rolando com muita tranqüilidade, sem a presença da policia dentro do estádio, muita confraternização, que não foi por água a baixo com uma rápida chuva que acabou por me impedir de prestar muita atenção no show na SNJ, um grupo de rap. Findada a chuva, o gramado era nosso novamente, e um belo show do DMN, mais um grupo de rap, pôs a mocada para dançar. Mas para agitar para valer as massas foi a belíssima apresentação de Thaide e DJ Hum, cada vez que assisto essa dupla fico mais e mais de cara, com muita alegria e simplicidade eles passam seu recado, põe a mocada para dançar e cantar, e DJ Hum sempre da um show a parte, mandando muito bem nas bases e scratches.

Para não parecer que tudo foi festa, entre as apresentações rápidos discursos, de diversas entidades, e todos sempre batendo na mesma tecla, a de que aquela manifestação apenas oferecia aos participantes o exercício da cidadania, ao contrario da manifestação da Força Sindical que reuniu quase 1 milhão de pessoas, usando os popstars que infestam a TV nos programas de auditório dominicais, e ainda iria sortear carros, casas, e sei lá mais o que ( pelo o que vi nos jornais no dia seguinte, a única voz que ousou contestar FHC foi vaiada pelo publico ). Outro ponto foi relembrar a manifestação de 1980, além de é claro, descer o pau na situação socioeconômica pela qual o Brasil passa agora.

Durante o show do Zé Geraldo eu dei um role, visitando as barraquinhas dos partidos e entidades lá presentes. Aquela ranço comunista anos 60/70 sobrevive, camisetas de Che Guevara, bandeiras de Cuba, muitas camisetas de Vicentinho, o candidato do PT para São Bernardo ( que fez um aplaudidíssimo discurso ) e livros, muitos livros, porem pouquíssima coisa interessante, parecia estar num sebo vendo desatualizados livros sobre a política e economia dos anos 60/70.

Pude ainda saborear uma deliciosa empanada chilena, feita por uma belíssima chilena residente no Brasil, procurei chegar junto, mas havia esquecido de uma coisa, Marxista não trepa.

Depois fui para arquibancada, e só então notei que haviam vários senhores e senhoras com mais de 50 anos, casais, que sempre se agitavam quando se citava a paralisação de 80, ganhei a fita fácil, eles estavam lá a vinte anos atrás. Como quem não quer nada comecei a conversar com alguns deles, e a coisa se tornou emocionante. Essas pessoas começaram a descrever a tal grande greve de 80, onde aquele estádio completamente lotado abafava o som dos helicópteros que lá sobrevoavam com seus gritos de a greve continua. Me falavam sobre o despertar da consciência de que todos juntos podiam mudar o mundo, e emocionados, agradeciam a minha presença, agradeciam sim o interesse dos mais jovens por sua estória.

Erro dessa empreitada, não Ter levado maquina e gravador.

Em maio também fui ao show do Motorhead. Um golpe de sorte e preguiça não me fez comprar na véspera do show, para descobrir no dia seguinte que ganhei um convite por uma via completamente indireta.

A casa de espetáculo que abrigou o evento pecou no que se refere ao som. Baixo, muito baixo. O som não bate no peito, nem te ensurdece. Porra era um show do Motorhead, banda que nos anos 80 entrou no livro dos recordes por causa do volume de seus shows.

A parte disso, o show foi bem bacana com vários clássicos ( que vocês sabem quais são ) uma Orgasmatrom com participação de Andreas Kisser. Não faço idéia de como foi o show na pista, estávamos no setor mais distante, o que era anunciado nos lambe lambes da cidade a 7,50 ( com a carteira de estudante ). Neste local o espectador tem uma visão do alto do palco. A mocada gostou bastante, alguns, mais exaltados começaram a destruir algumas das luxuosas cadeiras do setor, e alegremente arremessavam pedaços das mesmas na cabeça dos espectadores que estavam nas fileiras abaixo. Não soube se alguém se machucou com esta "brincadeira" dos moçoilos onanistas.

Greve

As faculdades estaduais do estado de São Paulo estao em greve desde 25 de abril. Negociações que não andam, plenárias permeadas pelo ranço partidario-esquerdista, bate papo de boteco, manifestações que conseguiram uma boa repercussão, em especial a que foi violentamente reprimida pela truculenta PM paulista na própria Av. Paulista, e o papo furado foram as atividades do período. Vamos acompanhar o desenrolar desta greve, hoje li no jornal que o governador irá reabrir a negociação.

O interessante é que neste momento temos o ensino superior publico paralisado, setores da saúde, o ensino publico de primeiro e segundo grau, a receita federal executando a operação padrão, e mais alguns setores paralisados. O MST fez bastante ruído nestes tempos também, com a ocupação de prédios públicos. Na Argentina uma greve com violentos protestos contra o desemprego e a alteração das leis trabalhistas ( com a previsível redução dos direitos e garantias dos trabalhadores ). O Chile questiona a vitaliciedade de Pinochet, A Bolívia viveu um estado de sitio após sofrer um levante de trabalhadores do campo e nas cidades. Com violentos enfrentamentos entre os manifestantes e as forcas de repressão nas cidades, e o bloqueio de estradas feito pelos camponeses pôs a nação Boliviana debaixo do caos após privatizar o sistema de água. O Paraguai sofreu uma tentativa de golpe na semana passada, o Peru vive um conturbado segundo turno, onde o candidato da oposição, Toledo abandonou a disputa da eleição no próximo dia 28, alegando falta de segurança contra fraudes. Os observadores internacionais também estao alertando o mundo da falta de confiabilidade no sistema contabilizador de votos, o estado atuando como agente represor da oposição, desigualdade de acesso aos meios de comunicação, uma duvidosa interpretção da lei que permitiu que Fujimori se candidatasse pela terceira vez, ... A Colômbia tem uma grande movimentação das FARCs ponde de cabeça para baixo o Estado Colombiano, e abrindo uma brecha para os Norte Americanos entrarem na America do Sul, e o mais preocupante para o Brasil, eles entrarem na região Amazônica. A Venezuela adiou as eleições, no México o candidato da oposição ameaça acabar com o império democrático de um partido, o PRI, vamos aguardar pois o PRI no decorrer de sua estória já se valeu de inúmeros artifícios completamente questionáveis para um Estado democrático. ...

Que coincidência não ? uma serie de países vizinhos vivendo um período conturbado, com problemas parecidos de desemprego, democracias questionáveis, corrupção, elites que sufocam os princípios democráticos. São sintomas mundiais de uma dominação econômica que tem como epicentro uma economia ( se não a única no mundo ) em franca expansão, com índices historicamente baixos de desemprego, não vou dizer o nome do pais, vocês sabem muito bem de quem falo.

Paulo Jerson(pabraao@fedex.com) é um Nóia, torcedor do Portuguesa e membro da comunidade alucionógena de Cidade Ademar.

 
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