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MANU CHAO
fotos e entrevista



Fred 04:
Desafiando Roma



Leitura Alucinógena


- Sentindo, assim, uma fome de queijo. - Você fumou? - Nada há mais de 15 dias. - E por que acha que essa fome de queijo persiste? - É preciso um assunto para justificar essa hora que passamos juntos. - Hmmm. Muito bem. Vejo o senhor na semana que vem.

Quando ele já terá completado 32 anos, e isso é um tremendo marco porque depois dos 22 não teve mais ninguém. Olha ele lá. Olha ele lá olhando a televisão, olha ele lá lendo o jornal, olha ele lá confeccionando seu próprio presente de aniversário.

Uma vez, ele trepou. Era outra, não aquela. A aproximação foi um grande sucesso.

- oi, teu pai tem boi?

Ele era um merda, mas era um gênio. Trepar foi burocrático, desistiu logo daquilo. Quem era a menina do brilho nos lábios, dos olhos vermelhos, cabelo molhado, quem é a sua menina?

Um boneco de pano. Primeiro, pensou em comprar um manequim de vitrine, mas não conseguiu convencer a gerente da loja a lhe vender um porque quase não tinha charme e explicar que pretendia dar de presente só ia piorar sua situação, já que a vendedora faria cara de pena e então estragaria a beleza do gesto; ao invés disso, ela lhe deu o endereço da fábrica de manequins. Mas como o lugar ficava a mais de uma hora de sua casa, achou que não valia a pena porque era ele quem fazia aniversário.

Confeccionando seu próprio boneco, conseguiria ocupar todo o final de semana e não precisaria telefonar para ninguém. Não é que não tivesse amigos. Tinha, mas raramente ouvia o que diziam. Ficava lá, bebendo até achar que era outra pessoa e apagar desacelerado na sala de quem fosse um casado mais solto ou um solteiro total sem dizer boa noite. Boa noite é para amantes que não fodem mais. E eles jamais tinham se tocado. Nenhum deles. Nenhum deles se tocava.

O boneco tinha a sua altura e era desajeitado como ele, mas paravam por aí as semelhanças. O boneco tinha a sua expressão, mas quem copiou quem? Não era o primeiro boneco de pano que via, sempre se barbeava diante do espelho, talhando o rosto como a coisa que queria ser, imaginativamente, delirando de manhã, em ressaca, sujo. Mesmo limpo estava sujo, mesmo quando estava no trabalho, procurava outras ocupações, quando estava com as pessoas de seu círculo, estava for a dele.

Seu medo era que outubro chegasse. Mandaria flores novamente como quem deposita um buquê sobre um túmulo. E receberia uma resposta do além, a voz pelo telefone sem graça, sem vida, sem tempo para compartilhar novidades. Nem sabia mais que coisa ela gostava de comer no meio da noite.

No domingo ­ fazia aniversário na segunda-feira ­ foi ao prédio de escritórios e abriu com sua própria chave a sala onde deixou sentado em frente ao computador o boneco. Arranjado seu substituto, não foi trabalhar naquela semana.

Ficou em casa ouvindo rádio. Só saiu para encontrar de novo o doutor.

- A fome de queijo passou. Agora digamos que eu fique ouvindo rádio. - Também pode. - O senhor não está me ajudando. - É absolutamente doentia a sua conduta. Tome duas aspirinas toda vez que sentir vontade de ouvir rádio. - Aspirinas não servem pra conduta doentia, doutor. - Então come um queijinho.

Satisfeito com a consulta, resolveu que voltava pro trabalho, resolveu várias coisas, aquele negócio de terapia era bom mesmo. Mal tirou o boneco da cadeira, saiu para tomar um café na sala de tomar café. O chefe foi atrás. O chefe tinha aquele andar flutuante do Drácula que o Coppola imaginou, só que ali não era o Coppola imaginando, era o chefe flutuando. Ele vinha assim, sssss, sssss, fazia um ventinho.

- e aí, seu viadinho, sumiu do mapa, comeu alguém, comeu, seu viadinho, comeu, hein? - O chefe achava que era muito seu amigo. - Você está pensando em voz alta, viadinho, viadinho. - O chefe podia ouvir o que ele pensava! - Comeu ou não comeu? - Soy loco por ti américa, soy loco por ti de amores sou loco por ti américa, soy loco por ti de amoresŠ

E ficou cantando aquele negócio. O chefe ssss ssss até o telefone e ligou, preocupadíssimo pro doutor.

- doutor, ele fica se fazendo de Caetano. - Dá queijo pra ele. - Que tipo de queijo? - Gorgonzola.

Tinha que surtar. Foi uma surpresa saber que haviam percebido que um boneco trabalhara em seu lugar uma semana inteira. Ficava ainda mais tenso sabendo que à noite teria uma festa para ir e não tinha sido convidado.

Chegou cedo com o buffet e começou a desmontar o abajur que ficava ao lado do telefone. A pantalha moderna do seu amor era a fantasia perfeita, tinha uma caçamba preta que ficava por cima de lâmpada e foi ali que enfiou a cabeça, tendo o cuidado de fazer dois furinhos no feltro armado sobre os arames para que pudesse enxergar a ação. Ninguém ia notar.

Quem é a moça com o vestido mais bonito? Quem é o moço que não sabe o que faz? Mexe o gelo no copo, move os braços sem jeito, leva a moça pra pista pra dançar? Olha um outro que chega, com um jeito tranquilo, são dois olhos que cortam coisas que estão no ar. Mexe o gelo no copo, move o corpo tão certo, tira a moça dos braços do outro moço na pista. Na pista. Na pista.

A música saía do rádio que carregava sempre consigo.

- Que é que cê tá fazendo aqui? - Eu te amo, Clarissa!

O telefone tava logo ali do lado, foi só ligar pra polícia. Podia ter passado a noite na cadeia mas Clarissa retirou a queixa. Ficou de licença enquanto o boneco trabalhava por ele. Desligou o rádio e ouviu música pro resto da vida, comendo queijo prato.

Cecília Gianetti é integrante do grupo 4-Track Valsa e possui múltiplas personalidades.

 
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