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Depois de 22 anos entrei numa de ser escoteiro. Foda-se. Queria aprender a fazer fogo com gravetos. Chegando lá o cara me disse que eu já tava muito velho pra isso. Me deu uma gilete e mandou eu me barbear. Foda-se de novo. Não preciso de ninguém pra me ensinar a ser escoteiro. Fui então numa loja, comprei uma toca de pele de esquilo, uma camisa regata, uma bota e um lenço marrom. Olhei no espelho e não gostei. Voltei na loja e troquei tudo por um radindepilha. Sai então pelas ruas, com o radindepilha no ouvido, procurando um graveto. Encontrei uma porrada. Enchi umas três sacolas com graveto. Sentei na calçada e vendo os gravetos comecei a chorar. Jamais ia ser escoteiro. Joguei álcool naquele lixo e sai fora. Entrei num bar e troquei o radindepilha por uma cachaça. O melhor negócio que eu já fiz na vida.
Escrevi um livro contanto essa minha experiência. A crítica especializada achou uma merda. Um escoteiro veio de Santa Catarina até aqui só pra cuspir na minha cara. Ontem eu encontrei um saco cheio de fezes na minha caixa postal. Foi ai então que eu deixei minha carreira de escritor-escoteiro pra ser diretor de cinema nacional.
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To fazendo um filme nacional. Não tenho roteiro, não tenho nenhuma idéia, não tenho dinheiro pra isso. Só sei o seguinte: vai ter o Matheus Narctschegale. Fui lá e fechei com ele. Dei uma de artista, falei mal do governo, disse que tinha uns planos de trazer festivais de cinema para as favelas e fiquei amigo dele. Ai no segundo dia levei uma câmera pra casa dele e fui filmar o cara. Mathes Narctschegale tomando café da manhã. Do caralho! Café e migalhas = Povo e censura. Ai fui seguindo ele pela rua. Ele ia pagar as contas no banco e entrou numa fila. Tinha uma velhinha passando pelo fundo. Do caralho! Um anônimo, a negação ao idoso, a exclusão dos fracos.
Saimos de lá. De repente comecei a sentir uma fúria no olhar do nosso herói. Ele me olhava de maneira inviesada e balbuciava palavras. E começou: - " tira essa (puuuu) daqui, seu filha da (puuuuu), cineasta de (puuuu), enfia essa camera no meio do seu (puuuu)". Do caralho! Me senti o Glauber Rocha, em meio à uma cena de cinema de vanguarda. E foi então que aconteceu: Matheus Narchesgarle derrubou a minha câmera e começou a me chutar, no meio da rua. O povão , vendo aquela cena, resolveu ajudar o artista da Globo. Todo mundo me batendo, as crianças cuspindo, as mulheres dando bolsada. Vendo aquilo eu resolvi desistir: - " Chega, eu paro com o filme! ". O povo então se afastou. Matheus Natchernagale deu uma grande risada, como um vilão da novela das 6. E eu, bem... eu vou é fazer um filme com o Chuck Norris. Não fode.
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Era meu último dia de vida e eu tava em casa, vendo TV. Acompanhava um capítulo do Vale a Pena Ver de Novo, e a trilha sonora do Roupa Nova embalava meus derradeiros instantes terrenos. A janela fechada, o sol batendo em cima do meu cobertor e eu me arrependendo lentamente de não ter lido os grandes mestres da literatura francesa. Comia uma batata Pringles, restos de tempero no fundo de uma embalagem cilíndrica. Se Magáiver tivesse aqui, transformava essa porra numa bazuca e explodia minha televisão. Ia me chamar pra uma aventura, pular de para-quedas em cima de um engarrafamento, invadir a redação do Jornal do Brasil com armas de plástico, procurar cavalos marinhos na Baia de Guanabara, ligar pro grande amor da minha vida. Mas não, ia começar um Botafogo x Americano na TV. E agora já era tarde demais.
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E quem me convence de que o Fofão não é o homem-testículo, vindo do espaço?
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Pedro Ivo (pedro@2pg.com)
é arquiteto de informação, tem 22 anos estuda publicidade e uma atração misteriosa pelos livros do Bukoswki.
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