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Leitura Alucinógena


-- Maxx

Beijo na Trave

As coisas estavam começando a ficar complicadas quando alguém disse: "A vida é assim".

Os meus maiores heróis são aqueles que reclamam do tempo. O Castañeda disse que é o inimigo definitivo e inevitável do homem de conhecimento. De fato, aquele que trilha pelo caminho da efervescência criativa, cultural e profissional volta e meia se vê metido por trapalhadas do tempo.

O Neil Gaiman e o Dave Mackean sempre disseram que queriam "aqueles dias de 56 horas de volta", bem esses dias ou não são da minha época ou é coisa de inglês, vai saber. Uma coisa legal no Neil Gaiman é que ele é um cara que mora numa casa igual a da família Adams, é amigo do Alan Moore e marca com meses de antecedência visitas a tudo quanto é pico do mundo, semana passada ele teve aqui no Brasil, e foi o cara mais assediado da bienal do livro. Eu o conheci poucas horas após sua (atrasada) chegada no Brasil, eram três e meia e tinha uma coletiva marcada as quatro no rio centro, como havia lhe deixado me esperando uns dez minutos fui logo me desculpando.

"Sorry! I'm Late!"
"I'm getting used to brasilian pontuality"
"We're not that Britsh"
"No problem, even the British photographers are always late"

Dai rumamos pra Bienal, eu, Mr. Gaiman e Cassius, editor de quadrinhos da Conrad que serviria de interprete para o autor do Sandman, e também faria a reportagem da revista Herói, para a qual eu estava clicando. Foi um fim de semana de cliques, muitas perguntas e inspiração. A legião de fãs, a variedade de edições que apareciam para este autografar, seus depoimentos, histórias e lifestyle provam que ainda dá pra ser rock star sem aprender a tocar porra nenhuma. E eu não tou falando de Gabba Gabba Hey.

Mas quando você vive intensamente eventualmente acaba percebendo que ninguém é de ferro. Entre um role e outro, volta e meia você acaba se vendo largado num canto de uma boate, possuido e sozinho. Chapado demais para tomar qualquer atitude. Acontece.

Segunda passada fui no show do Man or Astroman? Casa cheia, muitos amigos e chicas, mas luz péssima demais para fazer clicks decentes. Eu ainda tava meio tonteado quando encontrei a garotinha ruiva e tasquei-lhe um beijo na trave e tudo ficou colorido. Fiquei tão feliz que superei o fato de que a preciosidade espanhola que tinha alegrado minhas sessões de cinema semanas atrás encontrava-se ali perto e além de não me dar muita bola encontrava-se sendo arrozada (ou discretamente pega, vai saber) por um cara aê.

Foi realmente caído, rosto precioso, olhos lindos, sorriso carinhoso, pele suave, corpo gostoso e apenas amizade... É realmente ruim, não poder beija-la nem sentir o cheiro de se cabelo. E o cara lá perto... lembrei de uma vez que uma chica me apresentou meu sucessor como novidade e o figura você já conhece há séculos...

Uma vez um broder disse que tudo que não queria era filhas, deu o exemplo da primeira vez que viu sua irmã caçula "ficando", e era um amigo seu, "desses de armar esquema". Por isso ele não queria ter filhas, imagina se um dia ela aparece com um cara que nem ele, que nem eu, que nem nós...

Eu não gosto de generalizar, mas minha breve experiência me leva a crer que as mujeres tendem a conviver naturalmente com o ciúmes, pois estão sempre ciumentas, seja do marido, do amante, da amiga ou do cachorro. Quantas vezes não ouvi uma neurótica reclamar de que eu não sentia ciúmes dela. Peraí!? O que que você quer? Eu achava que era amor...

Amor... tá bom! Bem, se ciúme é o que vale afirmo que só dá pra se machucar mermo quando você perde alguém que gosta. Pior é quando você deixa perder, e você sabe que foi você que cagou tudo e agora só lhe resta observar de longe, os urubus...

Eu perdi minha preciosade espanhola, mas não importava, nessa noite a garotinha ruiva estava presente. A admiração por essa linda muchacha é onírica e descende desde que comecei a filmar seu movimento, anos atrás. Conhece-la e devagar driblar a timidez para trocar algumas idéias, só fez crescer a atração.

Gente tímida é foda! Tu é foda Matias Maxx!

Uma das maiores angústias do Schultz é aquele episódio da série de TV onde o Charlie Brown desmaia e o Snoopy patina no gelo com a garotinha ruiva. È que ele não detinha os direitos da série de TV, provavelmente roteirizada por um punhado de panacas de holywood pau-mandados do departamento de Marketing. Para o criador do Snoopy, a garotinha ruiva jamais seria desenhada. Parece que uma vez ele desenhou uma silhueta dela, e só. É que tratava-se de uma figura platônica, idealizada e inatingível, útopica... Aquela garotinha ruiva, não a minha...

Uma vez uma mina com quem eu andava enroscado tingiu o cabelo e me deu um presente, que acompanhava um cartão assinado pela "sua nova garotinha ruiva"... Não. Não! Vocês não entendem isso, não é aparência, não é nada disso. É um apelido carinhoso e muita amiração. Não é minha praia chorar nem cortar os pulsos nem babar por menina alguma. Por favor... Já sofri o suficiente quando mais novo para deixar essas palhaçadas pra trás.

Mas naquele momento eu fiquei feliz, e isso foi bom porque superei o ciúme, e me vi tomado pela euforia, que comemorei com álcool e erva, naquelas doses que trazem introspeção e confusão. Quando não se age na hora e se para pra pensar, os riscos de cair numa paranóia aumentam e finalmente você acaba preso na timidez de sempre. Foi basicamente isso que aconteceu...

A sucessão de eventos é horrível, você fica por aí que nem monstro, tentando disfarçar a aparência horrível, buscando as risadas fáceis para mascarar a derrota. Tudo bem que numa dessas tal qual lobo mau assustei a hermana de uma preciossíssima amiga que acabou ficando com ciúmes, e no final tudo se resolveu numa boa. Pelo menos por algum tempo, até a presente cagada pra ser mais preciso. Será que entrei num Loop?

O problema dos estágios de introspecção é quando você começa a pensar demais... o pior inimigo de um homem pode ser sua cabeça, sua imaginação. Os planos de dominação que nunca temos tempo para concretizar. As reconstituições das inesquecíveis cagadas que te envergonharam no passado e te arrependem, e pelo menos nesses momentos te arrependem. Eu sou um cara desencanado que facilmente liga o foda-se, nenhum estado, milícia, patrão ou mulher merece meu sangue, minhas lágrimas ou minha derrota. Mas confesso que nesse dia até sucumbi.

Pensar demais é foda.

Comecei a lembrar de todas as muchachas que passaram pelo apê do rock. Amigas, rolos, paixões calientes, filés (onde eu era o arroz), ex-namoradas, mujeres de atitude e ingênuas enganadas. Me lembrei daquela que possui com tesão e sensualidade mas paixão alguma, aquela outra pra quem fabriquei horários de compromissos fictícios porque queria ficar em paz depois do gozo, e não "atropelar" o horário de uma outra, que atrapalhado como sempre, marquei de encontrar na mesma noite... Paranóia na hora e risada depois...

Mas não é disso que a gente se arrepende. Isso faz parte da vida, isso faz parte de viver nos dias de hoje. Sou um cara atolado demais para namorar que nunca escondeu a tara e a promiscuidade. De ninguém.

Uma vez numa viagem afundei na Babilônia com um grupo de amigos, todos casados ou enroscados até a medula com suas radiopatroas. Adivinha quem foi o único a sair dessa história com filme queimado!? Matias Maxx... o solteiro, o fanfarrão...

Vou te dizer que eu presenteei e maltratei mulheres suficientes para em alguns instantes realmente acreditar naquelas teorias absurdas que você ouviu toda a vida na escola, nos filmes e nos bares. "Trate-as bem que elas cagam e te colocam no banco de reserva. Trate-as mal e elas elas se apaixonam."

Mas daí eu me lembro de quando a gente tinha quinze anos e ainda não pegava ninguém direito e ficava bebendo kaiser quente no terraço do prédio. Depois que o papo se esgotava e todos ficavam suspirando tonteados e desanimados eu subia num lugar bem alto e falava para os demais corações partidos...

- Tão vendo quantas janelinhas!??? Ta vendo!? Em alguma dessas tem alguém a fim da gente... Alguém a ver com a gente... Mais de uma até...

O foda é que toda vez que eu da última vez que encontrei uma dessas ela resolveu deixar o país para ir morar com a Mãe em Miami. Un tesoro, maravillosa!!! Preciosa... Mas tudo bem, o mundo é cada vez mais ridiculamente pequeno. Cierto!?

Distâncias... Contornável! Problema mesmo é ser extremamente ciumenta, ou irmã de camarada. "Daqueles..."

Mas tudo bem, como Super Chango soy Del fuego, soy do bairro, beberrão e mulherengo. A Rê Bordosa de samba canção, o Gato Fritz em corpo humano. Guerreiro, trabalhador!

Preocupação amorosa não ta na agenda do Matias Maxx, mas parece que isso faz parte de morar sozinho... Uma das últimas músicas do Joey Ramone, falava que quando ele via os preços, as brigas e a tevê ele não queria crescer. Eu sempre quis me libertar, ter meu espaço, minha trilha, minha vida. Consegui o apê do rock povoado por livros, discos e micros, ocasionalmente abrigando uma regada e barulhenta orgia ou uma enfumaçada sessão criativa. Mas volta e meia calha o azar de você tar sozinho e desanimado, e quando o telefone toca, e não é nenhuma voz agradável você começa a ficar triste. São os momentos onde o tempo passa devagar, e sua maior aflição é não conseguir fazer nada, nem ter ninguém pra te aquecer.

Liguei pra preciosidade que me deixa feliz, realmente o astral subiu, ela é linda. Mas algo rolou de estranho e eu não consegui firmar nada. Volto pra casa, a luz da secretária pisca e você queria ouvir uma voz qualquer que não fosse as mensagens de estresse de sua mãe, os suplícios de um vizinho viciado ou um camarada pedindo favor.

Daí a semana caminhou assim, que nem um eletroencéfalograma, um churrasco com poker na quarta, e escravização no escritório adentrando a madrugada de quinta pra sexta... Isso foi foda, pois além de tratar-se de um cliente pentelho (aquela empresa com ratos e patos falantes) a marcação tava braba e teu colega tava com um repertório de lascar. Quase estressei. A coisa legal foi que consegui voltar a plantar bananeiras. Seria um ensaio para uma escalada nas paredes?

Bem, pouco importa, o que importa é que já são nove horas e preciso camuflar a casa, esvaziar as trincheiras e preparar a munição. Vai ter uma festinha aqui daqui a pouco.

Matias Maxx, por Alê -- Maxx
-- um copo de cólera, um gole de dor
-- 25/05/01 21:11:20 / 20:37 5/27/01
_\|/_

P.S. - A Festa foi ótima, até onde eu lembro. Acordei derrotado, sem saber direito o que aconteceu até alguém me explicar. Depois, o dia inteiro limpando a sujeira da casa (que parecia ter abrigado uma batalha campal) e estocando as bebidas que sobraram (dá pra sobreviver a um inverno nuclear). Mas não! Não! Não fala em bebida... a ressaca ta cruel...


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