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Fred 04:
Desafiando Roma



Leitura Alucinógena

 

FRED ZERO QUATRO
por Matias Maxx e Marcus Marçal

Quem tem Bit tem tudo! Muito poderia ser dito sobre Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A. Mas é melhor deixarmos ele falar. Publicada originalmente no Trabalho Sujo, reeditada aqui no cucaracha, para reforçar novidades sobre o Mundo Livre.

 



 

Cucaracha Zine

Pra começar queria que você falasse um pouco do show de hoje e dos outros shows no Rio.

Fred

É o seguinte, a gente lamenta muito o fato de não conseguir manter uma sequência legal de shows aqui, porque desde a primeira vez a gente foi muto bem recebido. Me lembro de algumas músicas que a gente estreou aqui e que no início a gente tinha até que um certo receio, um nervosismo. De tocar samba porque, porra, o Rio tem altos compositores de samba. Mas pelo contrário, músicas inclusive inéditas que a gente estreou aqui, a galera cantou. E é sempre muito legal, o público é muito fervoroso e pula pra caralho! Acho que tem uma identidade até maior da população carioca com as coisas que vem do nordeste do que outros lugares como São Paulo e tal. Apesar de que sempre tem uns modismos, como o forró e tal, mas sempre quando a gente anda aqui no Rio, a gente sente que o carioca é mais aberto. O Rio sempre foi uma cidade mais cosmopolita, que recebe de coração aberto as culturas que vem do norte e do nordeste. E mais uma vez a gente teve essa confirmação, num show numa segunda-feira. A casa tava bonita pra caralho, a pena é que a gente espera na próxima vez ver se consegue tocar num lugar um pouco maior com estrutura de palco um pouco maior, porque já é a sexta vez que a gente toca aqui no Ballroom. Às vezes fica monótono.

Cucaracha Zine

Vocês ainda moram lá em Recife?

Fred

A banda agora se mudou mais pra São Paulo. Estamos alugando apartamento lá. Até pelo lance: Bactéria (tecladista), Fábio (baixista) e Marcelo (percussionista), todos casaram com campineiras e estão morando em campinas. O Tony (baterista) está namorando com uma paulista. Eu sou o único que sou casado com uma pernambucana e sempre que tem uma folga numa agenda eu vou para Recife, estou sempre lá com a família. Mas a base atual da banda é em São Paulo mesmo, porque é o centro do circuito de shows. A gente tem um público muito grande no interior de São Paulo, e nas universidades de São Paulo que são mais estruturadas para fazer shows, como a Unicamp e a USP, como Bauru e outras universidades que tem lá. Então é mais propicio para segurar a banda.

Cucaracha Zine

Vocês fazem um som popular, no entanto boa parte do seu público é universitário. Como você explica isso?

Fred

É engraçado porque a maioria do pessoal que faz som popular parece que menospreza a inteligência do povo. Então hoje em dia o som nem é o que o povo que consome mais, porque o que é direcionado com mais agressividade para o povo é o som mais descartável e medíocre possível. Então a gente faz um som que tem uma raiz popular, valoriza e reverencia alguma coisa da alegria e do caracter festivo do brasileiro, que é uma coisa que a gente admira muito, como, por exemplo, as coisas antigas do Jorge Ben. E saber interpretar também o caráter mais aberto do brasileiro da criatividade. Mas a gente não se identifica muito. Aí é que tá o lance do público universitário: porque a gente não se prende àquela forma medíocre e descartável e feita só para ser consumida o mais rápido possível que é a única opção quase que o povo tem hoje em dia.

Jorge Ben mesmo é um cara que fez altos hits populares como Fio Maravilha, o primeiro cara que colocou o futebol no samba e outras coisas como País Tropical e outras coisas e sem ser medíocre né? Sem ser descartável. Fio Maravilha é sucesso hoje, foi sucesso ontem, vai ser sucesso em qualquer lugar, qualquer época, porque é uma coisa que não é descartável. Por outro lado eu acho que o público universitário hoje é um público mais letrado, que tem uma base literária e cultural, e um padrão mais abstrato. Tem cada vez menos opções hoje na música popular, porque são poucos os artistas que fazem uma coisa que podem ser concebidas por um público um pouco mais letrado, então sobram poucas opções pro público universitário. Eu nem sei se eles gostam tanto assim da gente, mas sobram poucas opções pra eles(risos).

Cucaracha Zine

Eu queria saber das perspectivas do mundo livre quanto ao próximo trabalho: vocês tocaram umas músicas inéditas, não?

Fred

A gente já entrou em estúdio lá em Recife para fazer uma pré-produção, encomendada pela Abril. Eles bancaram o melhor estúdio que tinha lá e a gente fez uma base para doze músicas. E nem são todas que estão prontas, porque a gente só tinha dois dias para fazer isso, porque tinhamos shows marcados. Nesses dois dias nós só conseguimos gravar doze, mas eles gostaram pra caramba, algumas coisas dessa demo a gente já decidiu que não vai tocar e outras coisas mais novas a gente tá querendo botar. Mas isso só vai ser decidido na pré-produção mesmo, com o produtor.

Cucaracha Zine

Essa demo é mais ligada em samba?

Fred

A gente no primeiro semestre, a gente aproveitou que o ritmo de shows deu uma retraída. Até pela situação econômica do país. De fevereiro em diante teve uma retração fuderosa em todo o mercado, aí o ritmo de shows diminuiu e eu aproveitei para ficar em casa compondo. E nessa época eu tava muito ligado no cavaquinho, e quase tudo que pintava de inspiração era música para cavaquinho. Então surgiu muito samba, muita coisa nessa linha de harmonia de cavaco. Até a banda ficou um pouco assustada quando a gente entrou para fazer essa demo, porque a gente não tem essa intenção de fazer essa coisa só de samba e era meio que uma overdose e tal e a gente tá começando a dosar para tentar não ficar um troço muito uniforme. Que a gente não gosta de coisa muito uniforme porque a característica da banda é a diversidade. Mas com certeza vai ter uma predominância, não que seja de samba convecional, mas de coisa composta no cavaco.

Cucaracha Zine

Na minha opinião você é o melhor letrista da geração noventa.

Fred

Tem gosto pra tudo. (risos)

Cucaracha Zine

...Eu considero o mundo livre tão transgressor quanto o punk na sua época. Eu digo isso porque tem um verso numa música que diz "Minha mãe não pariu nenhum punk então quem tem que escutar é você".

Fred

Isso foi uma coisa que rolou uma época que eu era de um movimento lá em Recife que era meio que correspondente ao lance do ABC paulista nos anos oitenta. Eu até cheguei a ser expulso de casa, porque minha mãe falou isso, que não tinha parido nem criado nenhum punk e que era para eu ir viver com os punks. Então é meio que autobiográfico, mas eu acho que o que fez a gente se desligar quase de uma religiosidade punk que a gente tinha na épca foi um pouco a forma que o punk foi absorvido pelo sistema: virou personagem de novela, virou personagem de programa humoristico, música de Gilberto Gil, virou boutique punk, festa punk em colégio. Então a gente meio que tava começando a ser engolido por um troço diluido. Daí quando a gente fundou o Mundo Livre, com esse nome, a idéia era manter a atitude punk, mas musicalmente e em termos formais não se limitasse a nenhum padrão de linguagem, não se limitasse a uma regra punk ou a um som punk, que o som fosse mais livre e que permanecesse. As letras têm ainda um pouco dessa postura irônica e sarcástica, mantém uma certa ironia, acho que isso é importante.

Cucaracha Zine

Eu queria te perguntar sobre a música pop nordestina, de um lado a gente tem o axé e do outro Caetano Veloso fazendo remix pra tocar na novela.

Fred

Pô... acho que... É... (sorriso maléfico). Acho que o axé, o pagode, o sertanejo, essas coisas que geraram meio que uma certa hegemonia na mídia e tal, são produto de um sistema fraudulento de manipular o gosto público através de relações meio que corrompidas entre gravadoras e rede de rádio e TV. Coisa que tem sido bem denunciada agora por um advogado que lançou um livro, um ex-advogado de gravadora que agora é um advogado inimigo das gravadoras. Que denuncia toda essa máfia dos jabás e os contratos que os músicos são obrigados a assinar com gravadoras, inescrepolusoso e até criminosos.

Acho que ele fala de forma bem contundente de quem fez parte do esquema e que hoje denuncia tudo como é. O povo quase que não tem opção. E eu acho que figuras como Caetano e outros meio que se beneficiam até de um lado do tropicalismo, o lado de ser descompromissado com qualquer patrulha, qualquer coisa. Isso que fez até que caras como Tomzé se desligassem do tropicalismo, quando o movimento começou a tomar uma postura mais comercial. Isso não é surpresa. Nos últimos dez anos, pelo menos, você vê esse pessoal se envolvendo cada vez mais em polêmicas das quais eles só tiram benefícios delas. Eles nunca se envolvem em polêmicas que possam comprometê-los.

Cucaracha Zine

Quando se fala do mangue beat, muita importância é atribuída ao Chico Science, isso de certa forma te incomodou?

Fred

Não. Foi um período meio conflituoso quando Chico morreu, porque nós vínhamos realmente num processo de querer se desvincular dessa imagem de ser uma sombra do Chico e da Nação Zumbi. Até porque o Mundo Livre foi fundado quase dez anos antes do Nação Zumbi, em 84, e manteve a mesma linguagem que tinha em 84 quando o mangue surgiu. Então, inclusive quando o Chico morreu a gente tava no México, e essa viagem pro México foi a primeira viagem internacional que a gente fez longe da influência da Nação Zumbi. A primeira viagem foi pra Nova York foi abrindo pra Chico, no Brooklin. E para o México foi a primeira vez que a gente saiu do Brasil por conta própria. E quando a gente pensa que vai voltar para o Brasil e capitalizar esse esforço de se ter uma carreira própria, vem esse baque e veio aquela expectativa meio conflitante de saber que ia ter uma demanda para fazer a gente ser o herdeiro, porque Chico morreu. Mas aí eu lancei um manifesto logo uma semana depois da morte dele, chamado Quanto Vale Uma Vida, aonde eu coloco que tem um grupo que tem toda a moral e a trilha Afrociberdélica do Chico e esse grupo é a Nação Zumbi. Tudo que a gente tem que fazer é levantar a moral dos caras, porque com certeza eles ainda tem muita coisa pra dar para a música pernambucana, brasileira e mundial.

Cucaracha Zine

O manifesto original do Mangue (Caranguejos com Cérebro) foi lançado em 1992. Revendo hoje o que você acha que mudaria alguma coisa?

Fred

O que eu acho legal naquele manifesto é que ele consegue ser bem abrangente e ter uma consistência atemporal, porque a maior parte dos princípios que tinham ali que eram a diversidade e da alegoria dos manguezais como berçário de milhões de espécies como Recife e suas bandas. Isso permanece forte lá em Recife e é o que a gente acredita, o que a gente mantém como principio até para combater essa lei do pensamento único na indústria cultural brasileira. As rádios e agora até a MTV obecedem à lógica da cópia e da clonagem do pensamento único em detrimento da diversidade. E o mangue existe para isso para tentar resistir e enfrentar essa lógica perversa.

Cucaracha Zine

Teve gente que achou que com a morte do Chico o mangue beat ia acabar. Um grande jornal do Rio abriu uma matéria sobre o Abril Pró Rock decretando o fracasso comercial do mangue.

Fred

Engraçado que a impressão que eu tive é que alguns jornalistas saíram aqui do Rio com a pauta pré-estabelecida, achando que o Abril pro Rock ia ser um fracasso, uma vez que muitos dos discos do mangue não vendem muito. Então eles saíram daqui já acreditando que iam ver o fracasso do Abril pro Rock e como viram que foi um grande sucesso, acabaram tentando forçar uma pauta que era o fracasso comercial do mangue, apesar do sucesso do Abril pro Rock. Os argumentos são os mais furados, porque o cara quer analisar uma coisa do Recife totalmente como se fosse desvinculado da realidade econômica brasileira. E eu fiz uma resposta num jornal de Recife que realmente bandas como Mundo Livre, Otto, Devotos e outras não tem uma vendagem muito expressiva como deveriam ter, da mesma forma que Pedro Luís e a Parede, o Farofa Carioca, o Karnak, um monte de banda que faz som fora do pensamento único no brasil todo e também não atinge uma vendagem porque é sacaneado pela máfia do Jabá, do pacto da mediocridade das rádios. Da mesma forma que essas mesmas bandas não só de Recife como do Brasil todo são prejudicadas por uma recessão brutal. Eu mesmo nunca tive uma situação dessas na minha família de ter três irmãos desempregados, meu pai desempregado... E o cara vem me dizer que o mangue está em crise, que o mangue é um fracasso comercial. Pô, vai se fuder, né? O Brasil todo tá em crise! E por outro lado é uma forma de ignorar o fato de que Recife hoje é a capital dos festivais, os maiores festivais estão em Recife, fora o Abril pro Rock está o PE no Rock, tem o Som do Mangue, tem o RecBit Carnaval, festivais de grande porte com público com mais de três mil pessoas por noite, pagantes, mesmo sem tocar no rádio nem porra nenhuma. Quer dizer, o mangue é um fracasso como a Jamaica é um fracasso. E por outro lado, se a vendagem é a única coisa que serve como critério para avaliar a validade de um determinado movimento, então o tropicalismo só começou a existir nos anos 90, porque nos primeiros vinte anos nenhum disco tropicalista vendia mais que trinta mil cópias. enquanto Terry Winter vendia 600 mil, Secos e Molhados" vendia um milhão. Caetano e quejanos passaram trinta anos vendendo trinta, quarenta mil cópias, da mesma forma que Mundo Livre, então o tropicalismo só passou a existir a partir dos anos noventa porque ganhou disco de ouro. É uma mentalidade altamente equivocada.

Cucaracha Zine

Eu queria que você falasse de seus trabalhos musicais além do Mundo Livre, se você tem um outro som além deste que caracterizou-se como o som do mangue...

Fred

Meu histórico como compositor é bem anterior à banda. Eu comecei a tocar violão aos doze anos por influência de um disco de Tábua de Esmeraldas, do Jorge Bem de 74. Aquela levada de violão me fez entrar nessa viagem de composição e tal, desde os doze anos que eu ouço muito esse lance. Jorge Ben, hit de rádio e rock anos setenta. Eu ouvia muito Jorge Ben junto Suzy Quatro. Essa música Shanking All Over (do The Who) com que a gente encerra o show, foi uma das primeiras musicas que eu aprendi no violão junto de Os Alquimistas Estão Chegando. Então a gente reflete isso um pouco na banda. Depois de um ano eu abandonei um pouco o violão e quando eu voltei, eu voltei com vontade de compor qualquer tipo de coisa, eu compus muito forró, fazia samba, fazia qualquer coisa que dava vontade na hora eu gostava de compor. Nunca fui muito virtuoso, de ter uma técnica muito apurada. Minha viagem era pegar o violão para fazer música. Se eu tivesse com vontade de fazer um country eu fazia, se tivesse vontade de fazer progressivo, tango...

Cucaracha Zine

É por isso que muita gente fala que o Mundo Livre é meio primo de bandas como Café Tacvba, Molotov, Control Manchete e outras bandas latinas.

Fred

Isso, isso! Quando a gente quando começou com o Mundo Livre a idéia era essa. Eu tinha saído de uma fase bem hardcore que era um troço quase político, quando eu saí a idéia era tentar resgatar todo essa diversidade da minha formação musical e foi legal fazer isso com meus irmãos. Os sons que a gente ouvia era junto em casa - lógico que cada um tem um temperamento um pouco para uma coisa ou para outra. Mas eu tive muito problema de conflito, de identificação musical. Hoje em dia é massa você ter uma banda que já tem 15 anos. É difícil ter uma passagem de som aonde não surja um som novo, um groove novo. Qualquer coisa que vem do baixo a batera já entra. Já têm uma química que funciona.

Cucaracha Zine

Você se considera um peixe fora d'agua em comparação ao resto do pessoal da "geração rock 90"?

Fred

Acho que tem um estereótipo muito ligado ao roqueiro, não só brasileiro, mas muito notadamente no brasil que não tem uma tradição ligada ao punk, pelo menos mais a nível de indústria como é o caso do Clash, Stranglers, Jello Biafra e outros caras, Gang of Four e um monte de coisa assim, de uma tradição que já existe lá fora, dentro da indústria mesmo e aqui no Brasil não tem. Aqui a coisa é muito mais ligada à Cazuza, um troço muito de porra louca. Porque tem muita rádio hoje no Brasil que se chamava de "rádio rock" mas que na verdade tem um conceito muito limitado.

Cucaracha Zine

O Mundo Livre, por exemplo, é barrado em qualquer rádio rock de São Paulo.

Fred

A Rádio 89 de São Paulo por exemplo se tocar qualquer coisa de Recife é chuva de telefonemas dizendo que aquilo não é rock, que é coisa de baiano, que Rock tem que ser (Fred faz pose de farofeiro e manda um grito gutural), sabe? É um troço muito ignorante! Muito estúpido, eu acho que rock não tem de ser estúpido. O músico não só de rock, como de samba é um cara que paga aluguel, que paga imposto. Eu assinei um contrato de exclusividade com a editora e 26% o imposto de renda me tomou e eu fico puto porque eu não vejo nenhum retorno. Se eu precisar de uma assistência de saúde, por exemplo, eu tenho que pagar um plano de assistência privada, porque eu não vou contar nunca com um plano de saúde decente, mesmo sabendo que de cada três gotas de suor que eu derramo uma vai pro governo. E seja sambista ou seja roqueiro o cara é antes de tudo um contribuinte. Eu acho muito estúpido isso de associar a imagem de associar a imagem do músico e do roqueiro à um cara que vive em outra realidade. Por isso que minhas letras têm um conteúdo político, porque eu sou um ser político. E acho que todo mundo é, mesmo que não tenha consciência disso.

Cucaracha Zine

Como foi o lance da parceria com o anônimo do Café Tacvba??

Fred

Eu colaborava há muitos anos com um programa de rádio chamado Mangue Bit, de um brother que produzia lá e que sempre foi parceiro lá, desde o começo, desde a fase punk, que é o Renato L. Esse programa às vezes fazia uns especiais e tinha rolado um especial de rock mexicano. E desde 95/96, quando a gente fez esse especial e tocou não só Café Tacvba como um monte de coisa lá eu pirei, né? Daí quando fui ao México em 1997 a gente não pôde conhecer os caras lá, pois eles moram na capital e a gente foi para Guadalajara, não deu pra cruzar os caras. Só que por concidência poucos meses depois a gente começou a gravar o terceiro disco, o Café Tacvba veio pro Brasil fazer umas coisas de imprensa e divulgação de um disco que eles iam lançar, o Avalancha de Exítos. Me avisaram, dizendo que eles tavam lá em São Paulo e eu fui lá na Warner e levei um disco pra eles e entreguei o Güentando a Ôia, que era o único que eu tava na mão, e os caras disseram que não conheciam a gente, mas que alguns jornalistas já tinham falado, porque a gente fez uma música sobre zapatismo, que eram bandas meios primas e que eles tavam curiosos mesmo para ouvir o disco. E então, alguns dias depois, a gente tava assistindo ao Programa Livre com os caras do Café Tacvba e eles mandaram o recado pela TV: "É Mundo Livre! Muy bueno! Muy Bueno!". A gente ia gravar a última música, só faltava o vocal da última música que era Quem Tem Bit Tem Tudo. A gente descobriu qual era o hotel que os caras tavam e chamou, só que os outros caras já tinham saído, sobrou só o Anónimo, que disse "Ah! Vou aí agora!". E foi. A gente tava gravando os vocais na casa do Bid (produtor do disco) e Bid pirou. A gente passou a tarde com o cara, até filmou e depois pensou em fazer um clipe com isso, mas a grana do clipe a gente teve de direcionar para outras coisas. Mas tem isso registrado, o cara gravando com a gente falando: "ohhhh muy honrado! Mundo libre! Muito bom". Do caralho! O trecho dele ele escreveu na hora, porque ele preferiu dar um toque mais pessoal, porque era um tema meio delicado para o México, uma coisa que fala de terrorismo e eles tão envolvidos lá com esse troço da guerrilha. E ele preferiu dar a visão dele e mandou ver, na hora! Uma quadra lá perfeita, muito bom!

Cucaracha Zine

Quando vocês foram ao México não teve um lance de que vocês foram barrados na alfândega porque vocês mostraram o disco aonde aparecia o Otto e quem tava na banda era o Pianinho.

Fred

Não foi bem isso. Até por causa desse lance do lance do NAFTA (mercado comum que une EUA, Canadá e México) que tava para entrar em vigor. O visto mexicano era a coisa mais difícil para se conseguir, pois tinha-se medo de que o cara fosse pro México e depois entrasse clandestino nos Estados Unidos. Daí uma das exigências do Nafta é que o governo mexicano seja supersuperrigoroso para conceder o visto. A gente tava com o convite da universidade de Guadalajara para tocar, fax oficializado, mas não tinha jeito do visto sair, maior embaço, maior empasse. Já tinhamos adiado duas vezes o show e a gente resolveu entrar como visto de turista porque era menos complicado do que ir para tocar tinha essa musica do zapatismo e tal. Chegamos lá e tinha já uma galera da universidade esperando a gente lá na capital, só que a gente não sabia e mudaram de última hora. A alfândega foi feita em Cancun e a gente não tem cara de turista brasileiro que chega de Cancun, né? E os caras viram um monte de instrumento e a gente lá na fila conversando. Então a imigração olhando pra gente e todo mundo passando. Quando a gente tava perto, os caras rodearam a gente, tudo fardado, armado e enfiaram a gente dentro de tipo uma sala, ninguém falava castelhano direito daí, até explicar. A banda quase toda tava liberada porque tinha visto americano, porque a gente já tinha ido tocar em Nova York. Mas Pianinho tinha acabado de entrar, era o único que não tinha e aí complicou mais ainda. Aí a gente resolveu abrir: "Nós somos músicos", puxamos puxamos o disco e mostramos a foto e Pianinho também não tava, quem tava era o Otto (risadas)! Mas daí quando a gente mostrou o disco os caras já aliviaram olharam as fotos e aí que a gente lembrou - aquele vacilo do nervosimo - de mostrar o fax da universidade em papel timbrado. Os caras olharam e perguntaram se a gente tava levando grana, porque tem de entrar com uma grana mínima e a gente chutou e disse que tava com dez mil dólares, maior mentira do caralho! E que a grana tava na bagagem por isso não podia mostrar. Eles aliviaram e deixaram passar e a gente deu um disco pra eles. Voltamos pro avião e até a decolagem a gente ainda tava naquele nervosismo. Daí Guginha, o técnico, chegou e disse: "Fred! Esses caras que tavam lá armado, eles são contra Marcos ou a favor de Marcos (subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista)?". E eu disse: "Cara, esses caras são o exército, eles querem matar Marcos!". E o Guginha diz: "Ainda bem, porque eu ia dizer VIVA MARCOS! VIVA MARCOS! Ainda bem que fiquei calado" (risadas). E eu: "Mas eu deixei um disco com eles". E ele: "pô, não vai dizer que deixastes o Güentando a Ôia". E não deu outra, "Justamente o que tem essa música (a favor do Exército Zapatista), imagina se os caras resolvem ouvir o disco?". Eu sei que enquanto a porra não decolou eu fiquei naquela tensão.

Cucaracha Zine

A geração 90 geralmente é atribuída uma conotação pejorativa em termos de substância lírica. Eu queria saber se você prevê uma nova explosão do rock brasileiro.

Fred

Eu tenho notado, véio. Não só eu, até tava conversando agora com o cara que trabalha com o Vulgue Tolstói (Rodrigo Quick, produtor carioca) uma tendência que todo mundo tem identificado recentemente nas gravadoras, que é uma possibilidade bem considerável do pop rock ser meio que um substituto por um certo tempo, para pegar o vácuo da decadência do axé que tá muito saturado. Até mesmo uma rádio como a Jovem Pan de São Paulo que é uma potência e é uma rede nacional, ultimamente parou de tocar axé, parou de tocar dance e está aberto cada vez mais para o rock. Até a Daniela Mercury declarou que uma boa parte do próximo disco dela vai ser de pop rock. Lá em Recife, por exemplo, parentes meus que freqüentam um espaço mais "de playboy", burguesia, que frequentam só Micareta o ano todo e eles tão indo a lugares aonde tem bandas de pop rock cover. O Barão Vermelho tocou semana passada lá, numa praia longe pra caramba do Recife, a mais de uma hora do Recife e tiveram sete mil pagantes. E olha que o Barão não tá com essa bola toda no pop rock, não é nenhum Jota Quest, nenhum Charlie Brown Jr, nem nada. Então acho que tem uma certa tendência, agora resta saber que tipo de pop rock vai predominar. Aí até por um lance econômico. Porque com o rebaixamento radical do poder aquisitivo da classe C, D e E.. Ainda mais sendo esse o público que mais compra CD pirata também, disco no camelô... Então eu acho que as gravadoras vão tentar fugir um pouco, porque quem compra disco de disco de pop rock não compra o disco em camelô.É um público que tem um poder aquisitivo um pouco maior.

Cucaracha Zine

Eu tava pesquisando sobre a banda na internet e achei um site de fã no qual ele falava que de tão difícil que o Samba Esquema Noise (primeiro disco do grupo) é de achar ele mesmo está copiando em CD-R e passando para os outros fãs.

Fred

Só, tá certo lógico. O Samba Esquema Noise está fora de catálogo. Isso é uma coisa que é denunciada por esse advogado do qual falei, que as gravadoras são tão escrotas que se determinado disco não é disco de ouro no primeiro mês, eles tiram do catalogo rapidinho para colocar outra coisa na loja. Pedem devolução até e colocam outra coisa na loja. E tiram do catálogo, porque cada vez que um disco sai do catálogo, quando ele volta, ele volta mais barato e os royalties que vão pro artista são 50% menores! É por isso que o catalogo no Brasil é móvel, enquanto lá fora as gravadoras se valem mesmo de catálogo. Porque eles sabem que nas vacas magras eles ficam relançando as coisas que sabem que tem um público certo e fiel. Aqui não, o catálogo é móvel, eles vão tirando até ver que o negócio pode pegar de novo, colocam com o royalties mais baixos, capa adulterada, foda.

Cucaracha Zine

Ainda falando no Café Tacvba, e também falando do lance das bandas latinas que você citou, sei lá, Molotov, Mano Negra... Esse som tem a ver com o Brasil, porque trata do terceiro mundo e não pega aqui. É preconceito do público?

Fred

Não, velho, eu acho que o rock latino não pega como o Mundo Livre não pega. Como coisas como Boi Mamão, Graforréia... Tudo que foge do pensamento único, tudo que foge daquela máfia do jabá. A lógica é a seguinte: acumular o máximo de grana no tempo mais curto possível e tudo que fugir disso deve ser execrado, deve ser colocado na gaveta. Então é isso: um disco como o do Mundo Livre, que vendeu trinta mil cópias em três meses dá lucro. Você pode pôr na ponta do lápis, que dá lucro, tanto é verdade que eles mandaram a gente pra França, a gente tocou com tudo pago pela Abril. Só que hoje o interesse dos caras não é só ter lucro, é ter lucro astronômico. E no tempo mais curto possível. Eles não querem simplesmente uma coisa que dê um lucro certo e uma carreira de cantor.

Veja Chico: mesmo depois de ter sido citado no New York Times, ter tido uma turnê internacional com boa repercurssão, com os Paralamas abrindo pra eles. Mesmo depois disso tudo, o Chico foi chamado pela Sony, aqui e o mesmo cara que contratou ele, eu tava na reunião do primeiro contrato de Chico, um cara vem é diz: "Você é o novo Jackson do Pandeiro! Eu vejo você, só vejo Jackson do Pandeiro!". O mesmo cara, porque o disco de Chico só vendeu quarenta mil cópias no mundo disse: "Tu vai gravar esse segundo disco por pressão da Sony japonesa, por pressão da Sony francesa, porque por mim você tava fora". Você vê qual é a lógica. E o cara vendeu quarenta mil cópias do primeiro disco, Da Lama ao Caos.

Caetano e Gil, são de uma época que... O primeiro disco do Caetano vendeu cinco mil cópias, foi menos que o mundo livre. Aí vem um e diz: "Ah! mas na época o mercado era menor". Menor nada! Porque na mesma época Secos e Molhados vendeu um milhão de cópias, Terry Winter, que eu tinha o disco e tudo, vendeu 600 mil cópias. E Caetano vendia cinco, dez, quinze mil cópias. E ficou, por quê? Porque ele vendia dez mil cópias no Brasil mas tava todo ano nos festivais de Mountreux, nos maiores festivais da Europa. A mesma coisa do pessoal do Recife. Só que hoje a lógica das gravadoras é outra: ou você vende duzentas mil cópias do primeiro disco ou tu cai fora. Por isso que Manu Chao, Mano Negra... Esses caras não são levados a sério, nenhum deles.

Cucaracha Zine

O Otto teve reclamando em entrevistas recentemente uma parcela dele na composição de Rios Pontes e Overdrives.

Fred

Isso procede, até ele gravou essa parte no disco dele - "É macaxera..." - na música Bob. Quando o Nação Zumbi começou o Otto tocava nas duas bandas, antes do Toca Ogam (percussionista da Nação Zumbi)fazer conga.

Cucaracha Zine

Ele era do Lamento Negro (banda precursora do mangue beat)?

Fred

Não, ele tinha acabado de chegar da França e Chico conhecia pouca gente assim de conga. Conhecia a galera do tambor, mas não conhecia uma galera que tocasse assim, mais efeito. Daí o Otto se ofereceu e ele tocava tanto no Mundo Livre quanto no Nação Zumbi. Nessa época tinha uma só demo muito mal gravada. E o pessoal que fez a campanha do PT se não me engano, chamou, convidou Chico e Otto para comporem um jingle para a campanha da prefeitura, que era o Huberto Costa, daí ficou: "Humberto Costa... É macaxera, Bi ribeira, não sei quê". Essa parte era Otto que fazia (risos). Aí a campanha ia no dia eleitoral e esse trecho eram os bairros do Recife passava no carrinho. Foi a primeira eleição de Lula contra Collor e quando tinha passeata na rua e tal, o carro de som soltava essa música com Chico e Otto. Aí depois todo mundo de Recife sabe disso por causa desse lance que a música ia pra campanha na televisão e tudo. Daí quando saiu essa música, Rios Pontes e Overdrives no Da Lama ao Caos, Otto ficou puto pois não foi creditado. E Chico explicou que foi a Sony que não encaixou a história.

Cucaracha Zine

É engraçado porque tanto o Rios Pontes e Overdrives de vocês como o do Nação Zumbi são dieferentes né?

Fred

Não, isso é outra história. Rios Pontes e Overdrives era uma expressão minha, que era uma música. Até nego queria fazer uma coletânea no começo com esse nome. E "impressionante esculturas de lama" também é uma expressão minha de uma outra música. E Chico adorava essas duas músicas e falou para mim "Fred, estou afim de usar um refrão juntando essas duas frases e a gente entra como parceiro, eu tenho que colocar isso". A gente fez um acordo, normal, o disco dele ia sair primeiro e ele ia colocar Rios Pontes e Overdrives 2 e quando eu vi o disco eu também fiquei puto. O disco saiu primeiro, tava lá meu nome, mas tava Rios Pontes e Overdrives que é o nome de minha música, daí o Chico disse:

"Eu botei lá o dois, mas o cara da Sony foi e alterou" E não rolou. Daí quando eu fiz a minha eu tive que alterar para "Rios, Smart Drugs, Pontes e Overdrives".

E tem aquele lance que a Sony estava investindo pro cara ser meio que ponta de lança de uma história que ia colocar o Recife no mapa. Aquele lance de grande gravadora, de multinacional, tem que vender pra imprensa que o cara é o líder de todos. Eles ficaram meio putos também porque a proposta inicial era a Sony contratar o Mundo Livre também e eu tava na reunião junto quando eles contrataram o Chico e eles queriam que o Mundo Livre saísse numa coletânea, ia sair um álbum de Chico e o Mundo Livre ia sair numa coletânea, com outras bandas. Fuck you, velho! O Mundo Livre já tinha dez anos e já tinha uma proposta de Miranda para sair um disco pelo Banguela. A gente não topou ir pra Sony, aí eu acho que teve meio que uma máfia ali do disco sair bem antes e colocar o Chico na imprensa. Você pode ver que as matérias logo quando saiu o Da Lama ao Caos era Chico, Chico, Chico.

Cucaracha Zine

Rios Pontes e Overdrives, Quem tem Bit tem Tudo, Computadores Fazem Arte. Sempre tem essa relação com a tecnologia, eu queria saber até onde vai esse flerte.

Fred

Começou com Mangue Bit que fala desse lance de "o vírus contamina pelos olhos, ouvidos, línguas, narizes, fios elétricos" e eu tinha um brother, o Mabuse, que é quem colocou no ar o primeiro programa de rádio da América Latina feito só para a Internet, o Mangroove. Desde os quatorze anos que eu conheço o cara e ele já era vidrado. O primeiro cara de quem eu ouvi falar de cyberspace, cyberpunk, desses guris maníaco, nerd! Isso em 88, 89. Se associava com nego que tinha acesso à Internet e as coisas que ele me falava eu pirava com isso, as possibilidades de cyberspace, internet... Eu fiquei meio vidrado nisso mesmo. Daí comecei a ler Negroponte, Pirata de Dados. E na época que Chico fez Manguetown, eu pirei com essa idéia e achei um termo altamente epidêmico. Fui fazer um hino para nova cena e pensei logo em Mangue Bit, e já com essa sacanagem de colocar Bit sabendo que a imprensa ia puxar para Beat de batida, aí depois disso veio Computadores Fazem Arte, que puxa para outra coisa. Eu sempre gostei muito de dadaísmo e essa coisa do Duchamp e quando eu descobri o origem da palavra arte, que tem a ver com técnica e é uma coisa mesmo de técnica. Fiz uns textos na época sobre "artismo" meio que ironizando, dizendo esses caras que se proclamam donos de um dom divino, merecem tanto crédito quanto um padre que se diz mensageiro de uma mensagem de uma entidade suprema. Então eu falo que uma pessoa que é foda na arte culinária ou no futebol merece tanto crédito quanto uma pessoa que foi condicionada à ter uma técnica legal de música ou de pintura ou qualquer coisa assim. Nego não sabe quem foi que inventou o grampeador! Pô esse cara é um gênio da arte de todos os tempos. E não lhe é creditado, não é valorizado, por um lance do Artismo.

Cucaracha Zine

Por isso tem a frase "computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro"

Fred

É uma provocação sobre isso...

Cucaracha Zine

Você exalta a tradicional música popular. Recentemente compositores famosos foram convidados a fazer um hino sobre os quinhentos anos do Brasil, se você tivesse sido convidado...

Fred

Eu fiz um! O nome provisório é "Pataxó Quinhentos" e fala daquele índio baiano que foi queimado vivo em Brasília, aí fala da piada milenar, quase milenar brasileira.

Tem duas! Tem essa que é Pataxó Quinhentos que fala "Fim de noite em Brasília, nunca é tarde para um ato de civismo quando se tem um fusca preto". Esse é o maior símbolo do caráter desses quinhentos anos, o índio continua sendo queimado vivo. E outro que fala sobre ACM. Nafta com Dendê. Que é assim:


"Deus Nos Livre, Deus nos Livre
Que o mundo se torne um imenso Império Americano
Deus nos Livre
Daquele que sonha o Brasil como uma império
Baiaaano!
Quinhentos de pilhagem
Comemorar o que?
Meio milênio de pilantragem
Pra dar em NAFTA
com Dendê!

A Indonésia não é aqui
Toninho ê! Toninho á!
O que você nos conta do Tio Sam
Painho ê! Painho á!"

Eu vou tentar! Mostrei pro Tomzé e ele se amarrou.



Cucaracha Zine

Você considera suas letras como letras de um conteúdo hermético ou você acha que elas são passivas de pleno entendimento da maioria?

Fred

Hermético é o Tchan! Eu não consigo entender nada que os caras cantam (risos)!! Eu gosto muito de Carla Perez, acho ela maravilhosa! Sheila Carvalho, maravilhosa, todas elas maravilhosas! Mas agora o Tchan é outra história... Tem umas quinze músicas do É o Tchan que são plágios de uma musica que eu cantava quando era guri. "Na beira do mangue/ tudo vai rolar/ Na beira do mangue/ tudo esta lá" (canta a mesma melodia da Dança da Bundinha). Eles foram até processados, perderam na justiça por plágio e tiveram de pagar. Mas os caras que processaram são burros, eles fizeram em cima de uma só música, enquanto todas são iguais! Todas são plágio!

Cucaracha Zine

O que você tá achando do tabalho do Otto e todo esse hype que surgiu?

Fred

A gente foi quem deu o maior incentivo para o Otto gravar coisa dele, desde o primeiro disco, nos bastidores e tal. Otto sempre teve um lance de fazer música com qualquer coisa, ele tem um poder ali, rolava uma coisa engraçada com alguém da banda ou com o Miranda, daí ele pegava ali o pandeiro e já fazia, aquele lance mesmo lá do pina de copacabana: "Ela é do tempo do Bob". Desde 1994 que eu ouço isso no pé do ouvido. Aí Miranda sempre disse "porra! Tenho que gravar essas porras". Aí quando o clima começou a ficar meio foda com a banda, por causa de uma fase que ele entrou em muita detonação, chegou a chegar atrasado em show, e não sei quê. E Otto era um lance que desconcetrava muito a banda em show. Porque ele nunca seguia o que ensaiava, você nunca sabia se ele ia tá no pandeiro no tamborim ou pulando com a galera! Daí você contava com uma lance que tinha ensaiado e chegava na hora o cara desconcentrava tudo. Então a gente: "Otto, o lance é tu começar teu trabalho".

Pô, a gente rala pra caralho pra fazer uma coisa coesa e chega lá, na hora H... Tinha um lance interessante que dava um certo caos ali, legal, mas que para a gente chegava a um ponto que começava a ficar muito estressante. Daí acabou que não deu mais para continuar. A gente foi o primeiro a incentivar ele a gravar... A gente e Miranda.

Quando ele começou a gravar, eu fui, Pupilo (percussionista da Nação Zumbi) foi. Maior galera de São Paulo também. Apollo, o produtor e mais ninguém, nem o dono do estúdio que tava cedendo o estúdio tinha a mínima idéia de que aquilo ia ser lançado um dia. Era só uma condição de entrar no estúido e botar Otto para soltar as idéias dele.

Aí foi ficando cada vez mais louco! Mudava a mixagem, mudava aquilo. Virou um laboratório! O disco de Otto é na verdade um laboratório de um monte de gente a fim de fazer um troço totalmente, radicalmente, distante de tudo que tava rolando de rádio e tal... Daí, Miranda, quando entrou pra Trama, a primeira coisa que ele quis foi levar Otto, buscar Otto, aí já mudou denovo a mixagem e tal.

Eu achava um negócio que Renato L. fala e que eu acho super justo. Se fosse na Europa, aonde se tem uma tradição de um som mais alternativo assim, não deveria ser creditado como um disco só de Otto. Porque é no mínimo um disco de Otto e Apolo! Porque Apolo é metade daquele disco. Colocar o Otto pra cantar aquelas músicas sem aquelas bases eletrônicas. É outra coisa, totalmente diferente. Acho que é um disco metade pernambucano, metade paulista. O Otto compõe tudo com o que tiver na hora! O pandeiro, a boca, qualquer coisa...

Cucaracha Zine

A música O Africano e o Ariano alem de ser uma homenagem ao Chico é também uma resposta para o Ariano Suassuna que classificou o Mangue como um lixo?

Fred

É, realmente foi uma maneira de matar dois coelhos de uma vez só. É realmente um puta tributo à Chico e também uma sacanagem, uma provocação irônica e tal, de colocar o Ariano. Tem um livro que fala até um troço legal, é do Hermano Vianna e se chama Mistério do Samba que um dia eu ainda vou, nem que seja anonimamente, mandar esse livro pro Ariano. Eu até fui aluno dele e batia boca direto com ele nos seminários que tinham lá na universidade. Acho que tem isso, eu acho que o cara se recusa a reconhecer a herança africana assim, o que Chico representa. Como um mero sucessor natural de toda essa tradição da cultura negra, de ser a trasngressão, de representar uma forma de resistir ao gueto e a opressão com grande estilo, desde os primeiros bluesmen americanos. Isso fala da cultura negra no continente americano, desde o blues, o soul, a música cubana, que depois virou na Jamaica calypso, ska... E que na América do Sul, no nordeste gerou desde Luis Gonzaga até Jackson do Pandeiro e Chiclete com Banana e toda a Bahia!!! Quer dizer, nego fala: "pô! O mangue beat deve tudo à Alceu Valença" e eu fico puto, como se Alceu foi mais fundo nisso na época. Antes de Alceu teve Jackson do Pandeiro, teve Luís Gonzaga! Quer dizer... Isso vem da África.

O mangue beat é uma forma de uma geração urbana, de uma metrópole nordestina, de dar a seqüência à essa tradição, essa linhagem africana. E Chico foi um dos maiores representantes disso, que até um cara de gravadora pode reconhecer ele assim.

Um lance que vem desde Gilberto Freyre e que Ariano é um representante também, é que não consegue identificar. Reverencia por exemplo Pixinguinha, Cartola, João Pernambuco, aqueles caras dos Oito Batutas, dos primeiros regionais de choro e tal e não vê o quanto isso tem uma relação intimamente próxima do jazz. Pô, veja Carinhoso... Pixinguinha compôs influenciado por Duke Ellington. Tem é matéria de jornal da época que diz "Pixinguinha agora virou jazzista! Pixinguinha americanizou-se!". Mas tudo a ver, Pixinguinha é um cara como Louis Armstrong... O próprio Ernesto Nazaré, o cara bebeu na fonte de quem?? Chopin, cara!

Pinduca, Pinduca! Esse cara que eu homenageio no show e que conheci recentemente é um cara que você pega disco de Caribó Paraense dos anos sessenta. É muito louco! Os caras músicos de rua e a música começa com uma guitarra vagabunda pra caralho (Fred imita uma guitarra tosca): "Vou ensinar sinha pureza a dançar o meu caribó". Quer dizer, Ernesto Nazaré bebia do instrumento clássico da época que era o piano, como Pinduca e os caras do anos 50 pra cá... Os negões, beberam do instrumento clássico americano que era a guitarra e outras coisas.

A galera precisa ter uma visão um pouco mais antropológica da coisa, para identificar cada coisa como estágios de evolução de civilização...

Eu acho que uma coisa muito interessante seria, caso eu fosse um pesquisador, um acadêmico, uma coisa que eu queria encomendar era pesquisar o primeiro cara que chegou a primeira sanfona no interior de Pernambuco. A primeira sanfona que chegou lá deve ter sido visto como...

"O cara que ousou tocar sanfona, aprender sanfona" era visto como o Chico Science pelos Armoriais pelos Arianos. "Tá trazendo um instrumento de fora, aqui para a nossa realidade!". Sabe como é? Um troço que é totalmente alienígena à cultura sertaneja que é a sanfona, um instrumento tipicamente europeu, e que depois se transformou em símbolo de uma cultura nordestina. Uma coisa européia!

 
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