Como e quando o Mano Negra acabou são questões que permanecem na incerteza. A banda formada em 1986 nos guetos Parisienses lançou quatro álbuns ("Patchanka", "Puta's Fever", "King of Bongo" e "Casa Babylon"), uma coletânea ("Amerika Perdida"), um disco ao vivo oficial ("In The Hell of Patchinko", gravado no Japão) e em 1999 um "Best Of". Os três primeiros discos da banda foram com uma formação o "Dirty Dozen", nessa época ficaram conhecidos mundialmente pelo seu talento e suas ousadas turnês. Em 1992 eles percorreram a costa do atlântico num cargueiro, ancorando em vários portos pela América e realizando memoráveis shows, sempre acompanhados de uma trupe teatral. Em seguida eles percorreram a Colômbia num trem, aonde tocaram para "los milicos", "los índios", "los campesinos", "la guerrila" e "los narcos", sem distinção. No entanto, após a viagem à Colômbia a banda desetabilizou-se e perdeu vários membros, no entanto o Espanhol Manu Chao o vocalista e letrista da banda, junto de Argentino Fidel (do "Todos Tus Muertos") e novos integrantes gravaram em 1995 "Casa Babylon", um disco fantástico tão pop quanto experimental. Em seguida a banda acabou...
Manu Chao passou por um período de viagens (ele chegou a morar no Rio de Janeiro, em Santa Tereza) e projetos paralelos; montou uma rádio, organizou festivais, integrou-se companhias de teatro e circo, mas não era suficiente... No início do Ano, de surpresa, lançou "Clandestino - esperando la ultima ola", seu primeiro álbum solo, que em seguida tornou-se fenômeno de vendas por toda Europa e mundo latino... Com exceção do Brasil, aonde sequer foi lançado... São desseseis faixas, coladas umas nas outras, sempre com curiosas inserções como a narração de uma partida de futebol (de algum radialista brasileiro), recados da secretária eletrônica de Manu e fragmentos do manifesto zapatista de Subcomandante Marcos (que encerra com o pedido de "passem este manifesto adiante"). Onipresente em musicas do disco está um preciso artefato que Manu consegiu em suas viagens pela américa latina: Sons tirados de um legítimo chaveirinho paraguaio (aquele com barulhos detiros e bombas!!!)!!! Para completar, Manu cita mais de uma vez, musicas do próprio disco, dando ainda mais a impresão de que é tudo uma coisa só...
Se com Mano Negra Chao fundia inúmeros ritmos, latinos, europeus, africanos e arabes com as boas vibrações da Jamaica e o peso e a garra do Punk Rock, em Clandestino a latinidade é reforçada e o peso vai todo para as letras. As duas primeiras faixas do álbum "clandestino" e "desaparecido", praticamente se completam, narram histórias de nômades dos tempos modernos, imigrantes ilegais e viajantes sem rumo. As letras de alto teor ácrata questionam o mundo moderno, porque ele é o clandetino?? Porque não leva documentos??? Por quebrar a lei??? Por consumir maryjuana??? Qual o sentido disso tudo??? Manu ao final da Segunda faixa assume-se "perdido no século... século vinte... quase vinte e um... até onde chegarei???"
Em seguida "Bongo Bong", uma nova versão de King Of Bongo, mais lenta e com um coro de mulheres levando o coro do refrão. Mesmas mulheres que cantam parte da faixa seguinte, "Je Ne T'Aime Plus", onde Chao mais uma vez brinca com a cultura francesa (fez o mesmo em "drives me crazy" faixa do Casa Babylon, e em outras ocasiões). Em seguida uma série de faixas mais simples, em algumas vezes apenas violão, voz. Em letras bem trabalhadas, modernas mas melodiosas e panfletárias ou tradicionais, chao firma-se como um cancioneiro moderno. Essa fórmula atinge seu auge em "El viento", faixa que encerra o álbum a faixa certamente mais pesada do disco apenas com violão, voz e ruído de vento... O peso não está no som em si, mas nos 23 simples e repetitivos versos que a compõe, e que contam o exílio do homem, em fuga fome e em direção à Babilônia... Mítico, se não se tratasse de uma realidade do terceiro mundo, o Exôdo Rural e a necessidade da reforma agrária...
Mas não só de panfletos é feito "Clandestino", em "Welcome to tijuana", ele canta a explosiva fronteira Estados Unidos - México, da maneira que esta costuma ser cantada, com folclore e preconceitos ("welcome to tijuana, tekila, sexo, maryjuana"). No entanto a faixa que mais causará espanto e risadas no ouvinte brasileiro é "Minha Galera". Cantada num tosco Português a música retrata bem diretamente como foi a vida de Manu Chao no Rio de Janeiro... ( "...minha galera/ minha torcida/ minha capoeira/ minha menina/ minha maconha/ minha maloca/ minha larica/ minha cachaça/ minha cadeia/ minha vagabunda...").
Em entrevista para uma revista espanhola Manu disse que o maior artista de World Music que o mundo já teve foi Bob Marley. Mesmo não sendo um rotulo muito sério, o homem que é sinônimo de Reggae o merece, e Manu Chao não fica muito atrás... "Clandestino" pode ser local no Harlem, no Brixton, em Tijuana, nos confins da patagônia, na amazônia colombiana, na cidade de deus e até no posto nove. Então... Porque diabos não lançam esse disco por aqui? Porque o disco lota prateleiras latinas e européias e não as nacionais???
Vai entender este país...