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Atrás do trio elétrico...
...só nao vai quem já morreu

por Luciano Matos (lbmatos@e-net.com.br)


Foi mais ou menos assim:

2 milhões de pessoas na rua. 15 anos de Axé.50 anos de Trio Elétrico. Piso na rua pela primeira vez nesse carnaval, nada de trio, em um camarote uma música do Nirvana é entoada. Esse é o presságio do que seria o melhor Carnaval de todos os tempos. Sempre disseram que o Carnaval da Bahia é democrático, nunca foi. Há sete anos expulsaram o Rock do circuito principal e o refugiaram numa praia a 30 km da festa principal. Quem nao tem dinheiro tem que se espremer nos piores lugares dos circuitos. Voce ve claramente onde tem brancos e pretos nessa cidade negra. Normalmente separados por cordas. Este ano havia outra diferenca, uns viam de cima, em seus camarotes cheios de estrelas, lembrando os da Sapucai. Outros se apertavam lá embaixo, pouco se importando.

Os 15 anos de Axé servem pra mostar como o ritmo envelheceu. Saturou. Maior prova disso é a overdose de hits dos carnavais antigos sendo tocados nos trios. Desde os classicos de Armandinho, Dodo e Osmar até os classicos dos anos 80, como Farao, E la Vou Eu...até hits mais recentes foram desenterrados.

Esse Carnaval provou que o caminho está errado, mas ainda dá tempo pra consertar. Não existe razão pra existência dos blocos e cordas, eles só servem pra separar quem tem de quem não tem e espremer os desafortunados pelos cantos das ruas, provocando brigas e mortes, sempre acobertadas. Anos atrás as músicas agitadas incitavam as brigas. Hoje basta um trio de bloco passar, mesmo que tocando o pagode mais lento e inocente, para gerar conflitos. Quem viu no sábado de Carnaval um verdadeiro cortejo com o que há de melhor do Carnaval da Bahia pode ter se surpreendido com a passagem pacífica, ordeira e até poética de milhares de foliões atentos a boa música tocada. 4 Trios, um atras do outro, sem cordas, sem blocos, sem brigas e com musica de qualidade.

Nao é questao de gosto, quem acompanhou viu facilmente gente gritando que aquilo que era musica, que ali estava o Carnaval de verdade. E ninguem duvidava. Na frente o trio Chame Gente de Moraes Moreira, voltando depois de 15 anos ao Carnaval baiano. Moraes foi a primeira pessoa a cantar em cima de um trio elétrico e não esqueceu como se faz. Acompanhado de Gilberto Gil, levou os maiores clássicos dos carnavais de antes da famigerada Axé Music. "Chame Gente", "Vassourinha","Olhos Negros", "Atrás do trio Elétrico" e várias outras.

Dava pra sentir o público em volta do trio, sem precisar de segurança, completamente misturada, alegre e satisfeita, fazendo valer a tradicao do Carnaval de rua baiano. Branco, negro, pobre, catador de lata, empresário, médico. Ali tinha-se a noção do que é esse Carnaval tão propagado mundo afora. O riso na cara de todos era impressionante. Logo atrás, mais uma benção dos deuses do Carnaval. A Caetanave, ressurgida das cinzas graças a única pessoa que realmente importa nos últimos Carnavais baianos, Carlinhos Brown. Trio das antigas, com formato, músicos e bandas tao antigos quanto o proprio trio eletrico. Um pouco atras vinha o trio mais tradicional do planeta. Armandinho, Dodo & Osmar. Armandinho continua detonando na sua guitarra baiana, levando de tudo.

Os varios hits de anos atras foram tocados e acompanhados por um publico etasiado.
Ainda teve espaco para "Something" dos Beatles instrumental. Daniela Mercury provou neste Carnaval que ela comanda, nao entra no ritmo de um disco por ano, e nao se resume a fazer musica pra Carnaval. Acabou de lancar um single em homenagem a Mae Menininha do Gantois, suas novas musicas mostram quantos anos luz de distancia sua musica esta da mediocridade reinante.
Ela botou em seu trio o Olodum, o Ile Aye, gente ligada ao rock, cantora africana, berrou contra a violencia e trouxe a maior novidade do Carnaval. Um trio techno. Dois djs (Mau Mau de São Paulo e Jon Carter de Londres- do Monkey Mafia), um produtor (Dudu Martote), alguns percussinistas e a voz dela levando mais uma vez os classicos dos carnavais de todos os tempos, alem de algo de MPB. Mas o que menos importava ali era o que Daniela cantava. Se bem que Bat Macumba em pleno Carnaval com batida techno no fundo é inesquecivel. Os djs detonaram com muito techno, big beats, efeitos... Muita gente estranhou e o trio foi até vaiado, prova mais uma vez de como baiano medio é como o brasileiro, conservador e limitado. Ainda bem que nem todos, quem entrou no clima viu um dos melhores momentos do Carnaval, alguns sambavam, outros cantavam os tais hits e outros entravam no clima, fechava os olhos e se imaginava na tradicional Love Parade de Berlim.

Ela promete continuar com a ousadia no proximo ano, quero ver agora quem vai perder. Nao para por ai, esse foi o Carnaval mais rock, mais techno. O menos Axé desde que inventaram esse ritmo. Jammil levando Boys don't Cry, todos os trios tocando a cada hora Mulher de Fases e Anna Julia (essa foi considerada a mais executada, mas nao deve ser escolhida como a musica do Carnaval pq o bairrismo baiano nao deve permitir). Teve ainda o já tradicional Microtrio, levando, musica pop, rock, mpb, musicas de carnavais antigos. Quem nao viu perdeu um gringo que pintou junto ao Microtrio. Bateria nas costas, guitarra, gaita e ainda cantando blues, tudo junto. E o povo delirando. Margareth Menezes foi outra que puxava os mais exigentes, só levando o que prestou na historia do carnaval baiano. Ela ainda abriu espaco pra cantoras de renome nacional, como Zelia Duncan e Cassia Eller (que eu nao gosto). O que valeu mesmo foi ver o publico pulando feito louco com uma "Smells Like Teen Spirit" sendo detonada com um peso digno de qualquer banda punk, sim, em pleno carnaval. O encontro de trios reuniu na Barra os melhores, praticamente todos os citados acima.

p>Infelizmente perdi, mas soube que ate pout pourrit do Beatles rolou. Na quarta feira Carlinhos Brown (bastante discreto e talvez ressentido de varios problemas durante o ano passado) e a Timbalada fizeram o tradicional (repararam como tudo de bom acaba ficando tradicional no Carnaval baiano?) Arrastão. Uma 20 mil pessoas prestigiaram o evento. Teve ainda um trio de samba, que só pra vc ter uma ideia encerrava a noite com "Vai Passar", de Chico Buarque. Tinha trio de reggae, Jota Quest, Fat Family...

Ao contrario do que muitos dizem, a abertura para novos ritmos se deu pq a crise criativa da musica baiana é eminente, poucas musicas surgindo e a maioria de qualidade duvidosa. Quem viu o Carnaval de 99 sentiu o desanimo de musicas sem graca alguma. Esse ano preferiram resgatar o que se tinha feito de bom nos ultimos anos, adicionar pop, rock, mpb e repensar tudo. Mesmo que nao consciente esse era o clima. Como se se partisse do zero. As estrelas do axé aproveitaram para dizer que o Carnaval estava provando que nao havia crise. Foi o contrario, muita gente na rua atras de um trio eletrico significava que brasileiro gosta de festa, podia ser qualquer coisa que ele pularia. Infelizmente transforamaram a musica baiana em sabonete. Mas ainda dá tempo, e só vai ficar o que presta. Atras o trio eletrico só nao vai quem já morreu.


Luciano Matos (lbmatos@e-net.com.br)
Rua dos Maçons, 236, Pituba
CEP 41820-200
Salvador-BA

 
 
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