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Paranóico, eu?
Por Pedro Ivo (pedro@2pg.com)
Rio de Janeiro, RJ


Motoristas de ônibus sao figuras fáceis de se odiar. Mal-educados, prepotentes, pensam que são os donos do trânsito. Se utilizam do seu veículo para exarcebar sua masculinidade. Entram em uma espécie de transe pseudo-orgásmico quando fecham um carro na pista da esquerda ou quando ultrapassam o sinal vermelho. Sim, é como se o ônibus fosse um grande e reluzente pênis metálico, um objeto fálico deslizante e barulhento. Já dá para a gente imaginar o motorista chegando cedo na garagem e sentando em seu trono particular. Silenciosamente, mordendo o labio inferior, começa a acariciar o volante, enquanto sussura: - 'Oh, yes, vamos barbarizar nesse trânsito, baby'! E logo na primeira parada já se recusa a abrir a porta para uma velhinha. 'Só abro no ponto', o piloto replica. Pobre velhota. Onde está o Sérgio Cabral quando a gente precisa dele? Ah, já sei, deve estar em uma roda de samba no Estácio, bebendo uma cervejinha e discutindo animosamente sobre a velha guarda da Portela. Mentira! Tá é num piano bar, vestindo o seu pullover branco da Polo Sports, enchendo a cara de Jack Daniels e falando alto para todo mundo ouvir: - 'Mas essa velharada não me deixa em paz!' Sim, e enquanto isso, do outro lado da cidade, o motorista alucinado e seu ônibus camarada param mais uma vez. Surge então a misteriosa figura do fiscal. é, o fiscal, aquele sujeitinho de gravata que sempre está a espreita numa daquelas minúsculas cabines rodoviárias, segurando uma prancheta na mão com um falso ar de autoridade. O fiscal chega na porta da frente e, dando início a um estranho ritual, pergunta ao motorista: - 'é trinta e um'? O motorista: - 'Não, é quarenta e seis'. O trocador, por sua vez, também se faz presente: - 'Não, não. é sessenta e dois'! Há, então, um breve momento de silêncio, quase que reflexivo. Os três funcionários se entreolham e chegam a um consenso: - 'é, 62'. Sim, tudo bem, mas o que é isso? Um leilão? Uma contagem qualquer? 62 minutos? 62 sinais vermelhos ultrapassados? 62 velhinhas rejeitadas? Ou seriam 62 multas? Bem, sinceramente não sei. Vai ver é palpite pro Bicho.

*   *   *

Existe uma regra velada, passada de geração em geração, presente na mais distantes localidades, multicultural e comprovada cientificamente que diz mais ou menos o seguinte: homens não podem passar mais de cinco minutos no banheiro. Especialmente se você for jovem. Sim, isso mesmo, e não é paranóia minha não. Se você estourar o limite de cinco minutos no banheiro, todos vão começar a te olhar com uma cara estranha, em um misto de desconfiança, surpresa e decepção. E não interessa se você estava lá penteando o cabelo, trocando de roupa ou escovando os dentes. Ninguém acreditará na sua palavra. Sério. Continua não acreditando em mim? Bem, então faça o teste: assim que sair do banheiro, tente cumprimentar a primeira pessoa que aparecer na sua frente. Tente ser natural, se preocupando em não parecer muito feliz ou aliviado. Você logo verá que ninguém ousará tocar em sua mão. Muitos não irão olhar nem ao menos em seus olhos. é, sem dúvida, um momento extremamente solitário essas saídas do banheiro. Faz você quase se arrepender de algo que não fez. Ou fez, mas esse não é o caso. O importante a se destacar nessa triste história é o fato de que nós, homens, somos sempre tachados como pervertidos, incontroláveis, tarados de plantão. A mulher pode passar uma tarde inteira trancada no banheiro e sair com a mais genial das desculpas: - 'é coisa de mulher...'. Mas tudo bem, não estou disposto a iniciar um movimento de machismo filosófico e nem de queimar cueca em praça pública. O melhor a se fazer, pelo menos no caso de banheiro, é só se aventurar neste comprometedor domínio acompanhado de um cronômetro. Sim, um cronômetro. E assim que a porta se fechar por trás de você, aperte o botão e dê início à contagem. Aproveite sabiamente os dois primeiros minutos, pois estes lhe garantirão uma margem de segurança. Quando a contagem chegar ao terceiro minuto, tenha em mente que seu tempo está se esgotando. Ao chegar no quarto, cuidado: cada segundo deve ser dosado racionalmente. 4:30? Alerta! Do outro lado da porta, a casa inteira começa a desconfiar. Seu pai abaixa o volume da TV e passa a cochicar com sua mãe. Na cozinha, a empregada interrompe seus afazeres domésticos e olha pela janela, em busca de uma resposta. Seu animal de estimação começa a sentir a sua falta, enquanto seu avô conclui silenciosamente: - 'Esse menino anda comendo muita fibra...'.E é exatamente nesse momento crucial que você deve parar tudo o que estiver fazendo e correr para pia que nem um louco para lavar suas mãos e não estourar o limite de tempo. Bem, por um outro lado, você pode também chutar o pau da barraca e mandar tudo pro espaço. Que mané cinco minutos no banheiro! Eu vou é assumir o meu lado 'cinco contra um'. Bem, nesse caso, então, o melhor a fazer é colocar um daqueles avisos de não pertube na maçaneta do banheiro, iniciar a sua videoteca particular do programa Fantasia ( até o nome é sugestivo...) e desposar uma boneca de borracha.

E adeus impressões digitais...

Pedro Ivo, é arquiteto de informação da 2pG e tarado assumido.


 
 
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