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Leitura Alucinógena

 

Elias, Eliza, Elizete...
Por Pedro Ivo (pedro@2pg.com)
Rio de Janeiro, RJ


As férias estão chegando e você começa a pensar: "Ah, não aguentava mais aquela rotina de faculdade. Nessas férias vou fazer um curso de desenho, tentar arrumar um estágio, ir à praia e, quem sabe até, dar um pulo em Miami". é, e não demora dois dias para você se descobrir vendo o Programa Raul Gil em uma tarde ensolarada de segunda-feira. Aí, então, você vai até a janela, respira fundo, pensa em sair, ir ao cinema, sei lá, fazer qualquer coisa. Mas, a essa altura, já não tem mais forças, nem vontade própria. Tudo o que você quer fazer é deitar na cama e mergulhar de cabeça no tédio, esse nosso inseparável companheiro de férias.

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Os budistas, ou hare-chrishnas ( sei lá, é tudo a mesma coisa...), é que são espertos. Conseguiram dar um caráter espiritual ao tédio, chamando-o de meditação. é, como se ficar sentado com os olhos fechados, sem pensar em nada, fosse levá-los a algum lugar. Acho que tudo isso vem do fato dos budistas, os hare-chrishnas e os hindus ( esses também ) não terem televisão. Aposto que se instalassem uma TV em cada templo ( daquelas tipo Sky, com mais de 10 canais de filme e Playboy channel ) eles iam tomar vergonha na cara e sair daquela letargia. Talvez até, veja você, arranjassem um trabalho na cidade só para poder pagar o pay-par-view. E aí, finalmente, conseguiriam ver o Dalai Lama co-estrelando o novo filme do Richard Gere. é, porque esse tal de Dalai Lama, pequeno bunda, gosta mesmo é de aparecer na TV ao lado de um monte de mulher bonita ( e quem não gosta? ), produzindo concerto de rock e falando mal da China. Meditar que é bom, nada. E chega de programa Raul Gil !

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"Ahá, mas o que você vai fazer com 500 cruzeiros?". Entrega de prêmio da Tele-Sena é hilária." Ah, seu Sílvio, vou reformar a casa, comprar um carro novo, dar uma bicicleta pro Wellington, que é o sonho do menino". Vocês já reparam que, antigamente, o sonho de toda criança era ter uma bicicleta? Tinha sempre uma história no Jornal Nacional de uma criança carente que escrevia para o Papai Noel pedindo a tal da bicicleta. Aí eles mandavam um sujeito vestido como o bom velhinho para entregar o brinquedo. A criança chorava, eles filmavam tudo e dava o maior ibope. Agora não. Criança carente, hoje em dia, quer ir para a Disneylândia, conhecer o Ronaldinho e passar um dia com a Xuxa. Ah, dá um tempo. Vai brincar de bola de gude e não enche o meu saco. Mas voltando ao assunto da Tele-Sena, é impressionante como os sorteados imaginam que vão mudar de vida com 500 cruzeiros. Lógico, se fossem miseráveis, famintos, daqueles que a gente só vê em exposição fotográfica do Sebastião Salgado, 500 cruzeiros seriam a salvação. Mas, convenhamos, quem tem 4 cruzeiros para pagar numa Tele-Sena não está passando fome. E, mesmo assim, eles ficam numa felicidade. Acho que ficam mais felizes pelo fato de terem sido premiados do que com o prêmio em si. Ah, quem sabe dia desses eu compre uma Tele-Sena e seja, eu também, uma pessoa feliz?

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O tédio pode se tornar um coisa séria. Juro. Teve uma vez em que estava consultando a lista telefônica ( vocês sabem, né, só para distrair) quando senti um branco. Tudo apagou e devo ter ficado inconsciente durante um bom tempo. Quando acordei, tive um choque: estava lado a lado comigo mesmo, em uma espécie de experiência extra-corpórea, creio eu. Tinha ultrapassado todos os limites do tédio, atravessado a fronteira final que separa a realidade do absurdo. E foi exatamente nesse momento que percebi uma luz vindo da sala. Ficava piscando intensamente. Fui caminhando em sua direção, através do corredor, quando percebi do que se tratava: era uma festa. Logo ao chegar na festa, um garçom chegou com uma bandeja cheia de pastel de camarão. Pô, e eu me amarro em pastel de camarão. Mas quando eu o mordi, percebi que havia algo de errado. O salgado estava recheado de azeitona. E eu detesto azeitona. Comecei então a sentir que havia algo de errado no ar. Literalmente. A música que ressoava na festa era, se não me engano, o último sucesso porno-sonoro do grupo é o Tchan. A dança da busanfa, ou algo parecido. No centro da pista de dança, todas as mulheres pareciam dançar igual, em uma estranha sincronia. Aliás, de longe, e naquela escuridão, todas pareciam idênticas. Morenas, com os cabelos lisos e a cintura larga. E enquanto elas botavam a mão no joelho e davam uma abaixadinha, fui conferir de perto o material. Ao me aproximar, tinha cada vez mais certeza de todas elas se tratavam da mesma pessoa. Quando cheguei na pista de dança, tive um choque: clones da Gretchen estavam lá, na minha sala. Escondidas atrás de quilos de maquiagem e dentro de seus vestidinhos apertados, transbordando celulite por todos os lados, elas faziam coreografias insinuantes para mim. Bem, a partir daí não pensei duas vezes. Voltei correndo para o meu quarto, reencarnando em meu corpo e retomando o meu prévio passatempo. Onde tinha parado mesmo? Ah, letra E. Elias, Elisa, Elizete...

Pedro Ivo, é arquiteto de informação da 2pG e tarado assumido.


 
 
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