Conheça a LOUD!


 

 



¡Cucaracha no cinema!



¡Papeles,
por favor!



Microfone na Mão:
MARCELO D2



MANU CHAO
fotos e entrevista



Fred 04:
Desafiando Roma



Leitura Alucinógena

 

Procura-se hino para os 500 anos do Brasil
Por Marcus Marçal (misantropo98@zipmail.com.br)
Rio de Janeiro, RJ


Há poucos meses se instaurou uma polêmica típica de um país regido pela cultura de massa. Uma rede nacional de TV contatou compositores famosos para que estes compusessem um hino para os 500 anos da terra que Cabral um dia conquistou. Um dos primeiros a se apresentar foi a maior dupla sertaneja do Brasil: Chitãozinho e Xororó. Estes foram repelidos ao apresentarem sua ode à Terra Brasilis. Motivo: em dado momento, a dupla utilizou o artifício estético de uma alegoria às arenas, numa alusão explícita ao Brasilzão que eles vislumbram pelos palcos de feiras agropecuárias da vida. Logo se manifestaram os patrulheiros ideológicos, com toda a razão, já que a alegoria poderia remeter ao Brasil da época em que o moderado MDB e a conservadora ARENA eram nossos únicos partidos políticos.

"Desclassificados" pela incorreção política, a dupla tirou o time de campo após a polêmica, que se resolveu com uma empreitada de Milton Nascimento. Este peitou a parada, amparado pelos coros infantis típicos de algumas passagens de sua carreira. Mas a polêmica acabou sendo mais interessante do que a homenagem, posta no ar poucas vezes. Aproveitando o mote e a ocasião dos 500 anos do Brasil, o Cucaracha entrou em contato com alguns expoentes do cenário musical para que estes manifestassem como homenageariam o eterno "Eldorado" em que vivemos e que nos faz brasileiros. Divirta-se!

Que País é Este: Há quem diga que um hino mais que apropriado aos 500 anos seja a faixa-título do terceiro álbum da Legião Urbana. Composta no final dos anos 70, a canção aborda assuntos extemporâneos à realidade brasileira: corrupção de políticos, massacre de índios, a inesgotável e platônica esperança dirigida ao país do futuro.

Os Paralamas do Sucesso gravaram recentemente uma versão para essa música, mas Herbert Vianna não vê justiça a quem a considera como um apropriado retrato dos quinhentos anos. "Seria se pudéssemos separar isso do resto das coisas boas. Como um hino, em absoluto, isso definitivamente não procede. O Brasil é um país lindo, com um monte de gente legal fazendo várias coisas legais. Tem muita gente anônima fazendo coisas que te fazem se sentir um bosta e dizer: ‘Eu não faço nada’. Muita gente mesmo: médico lá na casa do chapéu, pessoas fazendo caridade nos morros, escolas. Algumas delas são pessoas que vivem numa miséria e, por ideologia, vão lá e ensinam as pessoas a ler. Então, acho que seria uma injustiça muito grande com essas pessoas se o hino dos 500 anos fosse uma coisa tão negativa", avalia o líder dos Paralamas.

Sem razão para comemorar: Muitos vêem a comemoração como uma tremenda bobagem. Esta é a opinião de Philippe Seabra, guitarrista-vocalista da Plebe Rude, de volta ao Brasil após quase dez anos no exterior. "Acho que não temos o que comemorar. Vamos festejar o colonialismo, a exploração e a roubalheira? Sem condições. Tenho orgulho de nunca ter feito uma canção ufanista. Algumas canções da Plebe foram compostas há quinze anos e ainda continuam atuais", critica o Plebeu.

Tal contundência é partilhada de forma irônica por Fred Zero 4. O líder do mundo livre s/a chegou ao ponto de compor duas músicas sobre o tema. A primeira delas se chama "Pataxó 500" que, segundo o autor, trata do incidente que levou a morte de Galdino, o índio queimado vivo em Brasília há alguns anos. "Essa música fala da questão indígena, a piada quase milenar brasileira. é sobre o maior símbolo do caráter desses 500 anos: o índio que continua a ser queimado vivo", revela Zero 4.

Outra composição do mentor do mangue beat é "Nafta com Dendê", uma "homenagem" ao presidente do Senado Federal, Antônio Carlos Magalhães. Assim como "Pataxó 500", Fred prentende incluí-la no próximo álbum da banda - "se deixarem", como o próprio ironiza.

O CUCARACHA destacou certo trecho da letra de Nafta:

"Deus nos livre que o mundo se torne um imenso império americano / Deus nos livre daquele que sonha o Brasil como um imenso império... baiano / 500 anos de... 500 anos de pilhagem / Comemorar o quê? / Meio século de pilantragem pra dar... em nafta com dendê / A Indonésia não é aqui / Toinho ê, Toinho ãhn, o que você nos conta do Tio Sam? / Painho ê, Painho ãhn, o que você nos diz das ilhas Cayman?".

Vale ressaltar que esta composição pode contar com a participação de Tom Zé, que se divertiu com o humor impagável da composição de Zero 4. "Mostrei essa música para o Tom Zé e ele se amarrou. Vamos ver o que acontece", conta.

Leia mais: entrevista com Mundo Livre S/A

Lobão é outro dos que reiteram a repulsa contra a comemoração aos 500 anos, como destacou. "Primeiro, não concordo que tenhamos sido descobertos - fomos conquistados. E depois, não tenho nada o que comemorar com isso. Acho que seria o primeiro a fazer uma música de 500 anos de vilipêndio, de depredação, de injustiça, de coronelato, da escória da sociedade européia vir aqui e pedrar a cultura local, a cultura indígena. E também do uso e abuso da escravidão", avalia o percurso histórico do Brasil.

Pluralidade brasileira: Peixe-fora-d’água nessa discussão, o veterano jornalista Jamari França destaca a dificuldade de se poder representar toda a pluralidade brasileira em uma única música. "é difícil sintetizar o Brasil numa música. ‘Aquarela do Brasil’ e ‘Que País é Este’ falam do mesmo país com a maior sinceridade", avalia.

Esta opinião é compartilhada por Herbert Vianna, que chama atenção às diversidade étnica do povo brasileiro. "é como tudo no Brasil. às vezes me perguntam o que é a música do Brasil. Mas não tem uma coisa que seja ‘a música brasileira’ ou um sotaque típico brasileiro ou uma cor de pele que seja ‘a cor brasileira’. Aqui temos de tudo e essa é a graça! Existem escolas no Sul em que as crianças vão para a escola e falam russo, alemão. No nordeste, uma boa parte da molecada pobre mesmo é lourinha, pela colonização dos holandeses. Isso é muito engraçado", ressalta.

Sem saber, Lobão concorda com a opinião de seu mais notório desafeto, ainda que com certas ressalvas. "Apesar dos problemas, acho que não adianta entrar em depressão. Temos que levar em conta o nosso povo, que luta e tem o maior valor por todas essas agruras que passa e por todas as inventividades, além de sua própria alegria inerente. Mas acho que temos muitos motivos para refletir e saber que somos um país colonizado, conquistado, submisso e alegre - e que come cocô e ri. Acho que a primeira coisa a fazer é parar de comer cocô e depois rir de outros motivos que não sejam esses que estão nos imputando".

é ele quem fecha a questão, expondo toda a sua indignação. "Acho que ‘500 Anos do Brasil’ soa tão Antônio Carlos Magalhães, que eu não teria como musicar p*rra nenhuma em relação a isso porque acho esse mote vergonhoso. Vivemos no país do feriado, do enforcamento, do Carnaval fora de época, da Micareta... Somos a oitava potência econômica do mundo e com pior distribuição de renda. Somos uma das maiores deformidades demográficas que o mundo já inventou sob a face da Terra. Não temos nenhum motivo de nos alegrarmos, e sim, todos os motivos para refletirmos", finaliza.

Quem sabe a coisa melhora nos próximos 500 anos!

Marcus Marçal - colaborador da revista rock press.


 
 
|palavras|resenhas|colunistas|entrevistas|notícias|
|notas do editor|el espresso|o que é?|faça contato!|
-- matias maxx 2000 --