Não sou nem um pouco saudosista, nem pessimista, mas as vezes fico de cara
observando tudo de uma ótica mais pessimista, no sentido de prever o pior, e
vejo como como mundo atual está involuindo de uma forma gradativa. Um dos
termômetros pra isso é observar que as pessoas com melhor nível cultural e
uma visão de mundo mais apurada têm se retraído cada vez mais em relação ao
mundo que as rodeia, como próprio reflexo a essa involução. Ou seja: a
impressão é que quem tem bagagem cultural e inteligência para agir, tá se
deixando oprimir pela massa burra que só cresce.
Televisão, que é o centro da nossa sociedade, é cultura de massa cada vez
mais "capitalista selvagem"; Mesmo na TV a cabo é preciso paciência e
disposição para garimpar no meio de enlatados e lixo e a maioria das pessoas
que eu conheço nem ligam a TV; Revistas de grande porte só parecem se
importar em agradar a multidões. A superficialidade e inutilidade reinam
onde quer que haja informação para massas. Causa revolta assistir
prioridades inúteis da mídia,
do tipo "serial killer agia de tal maneira", ou "super-piranha tal
desmanchou seu noivado", etc. Valores se mostram invertidos e a maioria não
parece perceber como a mídia fabrica "produtos de consumo" sem nenhum valor
intelectual, de forma massiva e massificante . E o pior é que isso realmente
funciona na população, as pessoas dão "ibope" a essas inutilidades... Há
cada vez menos conscientização a respeito.
Penso na questão essencial do problema: Para onde vai nossa herança
cultural? Até que ponto a mídia massificará? Até quando as cabeças pensantes
se isolarão arrediamente da estarrecedora hegemonia do consumo vazio? O
nosso destino é ser cada vez mais superficial?
E não é qualquer herança cultural que vai por água abaixo, é uma herança de
toda a história humana, que se transforma rápido nas ultimas loucas décadas
da humanidade sem que percebamos...
Um exemplo: Vamos considerar que a melhor educação é aquela feita por bons
ícones, o melhor ensinamento é aquele feito de bons exemplos, ok? Em 5 mil
anos de história, os modelos foram os sábios, os iluminados espiritualmente,
os filósofos... Até pouco tempo atrás, na história da humanidade, os bons
exemplos eram os bons escritores, os artistas valorosos, os líderes
políticos... E hoje em dia? Quem são os "bons exemplos"? É o fulano que
ganha mais e ostenta, sicrano egocêntrico que consegue aparecer mais na
mídia, beltrano que é um pseudo-artista mas um ótimo auto-promoter, aquele
mau-caráter que joga bola direitinho ou canta pagode e vira herói nacional,
o escritor que agrada às massas...
E os modelos femininos de hoje em dia? Infelizmente não são mulheres
trabalhadoras, ou intelectuais, discretas ou sensatas. Não, isso não dá
"ibope"... Infelizmente milhões e milhões de mulheres em formação se
espelham em símbolos ocos, como uma oportunista que tem "carisma" por ter
eloqüência diante das câmeras, uma maluca que aparece em todas as novelas e
faz uma plástica por ano, uma que faz fama expondo (quando não vendendo) o
corpo, uma outra que vira "celebridade" com fofocas e escândalos, e por aí
em diante... Isso é preocupante.
Estamos sendo corroídos, sem que percebamos, por um câncer cultural
crescente, resultado da nossa vida cada vez mais urbana, capitalista, e
portanto desumana, onde não há espaço para valores essenciais "abstratos", e
sim para o dinheiro "concreto", imediato, e jogos superficiais de oferta e
procura , para aparências e ostentações fúteis. Isto está em cada esquina,
se pararmos pra observar.
E como eu gostaria de espalhar mais essa consciência... Mobilizar forças
pensantes e formadores de opinião para que que agissem e não se resignassem
diante desse problema crescente; para que se movimentassem no sentido de
tomar medidas úteis em relação a tudo isso... Talvez seja a única forma de
influenciar os que movem a mídia, cada vez mais ambiciosos por quantidade e
dinheiro e cegos em relação a valores prioritários... Sonhando mais alto,
como seria bom se o povo se conscientizasse de que a vida não gira em torno
da mídia, ou pelo menos selecionasse melhor o que é empurrado,
descaradamente, por ela...
Precisamos pensar um pouco mais seriamente no futuro, enxergar que uma
degradação cultural muito pior que a atual pode ser revertida por nós. Nós,
que temos ideologia, buscamos bom senso, nós que lutamos por um mundo
melhor, não podemos "deixar rolar".. Se cada um fizer um pouco tá valendo.
Por enquanto, ganha poder quem adula (e explora) as massas, o comércio
engole cada vez mais a arte, o mundo está emburrecendo e o mundo é cada vez
mais dos manés.
Lucio K - é DJ e produtor, meio carioca, meio baiano.