Hoje Ricky Martin pode falar que veio do Menudo que não tem problema - até o Renato Russo gravou Menudo! Ser latino não é mais brega como em tempos passados. É, brega. Até hoje rimos das maquiagens das atrizes em novelas mexicanas e do jeito esquisito que os argentinos têm, embora este puro preconceito tenha diminuído drasticamente nos últimos anos. Ser latino era brega e a influência da arte latina na cultura ocidental era medida pelo nível da cafonália. Procure os latinos nos filmes americanos e europeus: espalhafatosos, barulhentos, confusos. Desde as cores do cinema de Pedro Almodóvar às das roupas de Sidney Magal, a cultura latina parecia uma imitação exagerada da cultura ocidental.
Já disse e repito: puro preconceito. Como cada um de nós sabe, a cultura latina não são duas vizinhas fofoqueiras que se pegam aos gritos pela rua. O requinte e a sofisticação latina - até em seus momentos mais grosseiros - é algo que a cultura ocidental européia nunca vai passar perto, um charme manhoso que reflete-se no modo de vestir, de falar, de cozinhar, de cantar. É este charme que faz o ritmo africano virar samba ou reggae, uma mistura da intensa cultura hispânica (que por sua vez descende da cultura árabe, outro poço de riqueza) e do mistério fascinante dos índios americanos. Crescida em centros urbanos (e sempre migrando para estes, em diferentes escalas), a latinidade sempre foi visto como uma qualidade chula, um mau gosto inerente à classes sociais e financeiras.
Uma bobagem que o resto do planeta está tendo que engolir em forma de overdose. Do já citado Ricky Martin à febre hollywoodiana por latinos (Antonio Banderas, Jennifer Lopez, Salma Hayek) às descobertas da música brasileira e cubana pela intelectualidade gringa, passando pelo renascimento da cultura francesa (que bem ou mal, é latina), a redescoberta do ska, a cena californiana de rappers que cantam em spenglish (misto de espanhol com inglês) e o personagem Fez no seriado That 70’s Show. Uma série de fatores tornam a latinidade mais suscetível ao paladar do resto do mundo e, por isso mesmo, mais digerível. Afinal, gosto é hábito.
Mas um cruzado solitário atravessou a primeira barreira do preconceito. Com uma superbanda - moleques de 20 anos, com uma química intraduzível em palavras -, o mexicano Carlos Santana foi de encontro ao preconceito fronteiriço americano e ergueu o suíngue latino para o mesmo altar em que atirava sua guitarra, quando solava. A influência de Santana na música popular é simples e gigantesca: foi com seu grupo inicial que a música latina trocou de formato para os olhos ianques - e, conseqüentemente, para o resto do mundo. Antes era um tempero ardido, misto de tango, rumba, mariachi, mambo, calipso e "arriba muchacho" tão nociva para a imagem de sua cultura quanto a sombra de Carmen Miranda (e, mais recentemente, Tom Jobim) tem sido para a noção do que é Brasil que o mundo tem. É por causa de Santana que Tito Puente morre celebrado como um mestre do jazz, não um mero animador de festas - como o viam no passado. A braçada de Grammys que o guitarrista mexicano levou pra casa no ano passado (com a faixa Smooth e o disco Supernatural) foi apenas a coroação da indústria à sua influência no mundo musical como conhecemos hoje.
O segredo do guitarrista foi sua primeira banda. Um sexteto inacreditável composto por Carlos Santana nos vocais e guitarras, Gregg Rollie nos teclados e vocais, Dave Brown no baixo, Jose "Chepito" Areas, Mike Carabello e o baterista Mike Shrieve na percussão. À frente da banda, Santana e Rollie respondiam como os primeiros instrumentos - por vez era o tecladista quem conduzia o groove principal, dando um molho sonoro borbulhando de tão quente, por onde Santana atacava com uma guitarra histérica, quase uma diva soul, gritando a plenos pulmões notas que só conseguem tradução com as caretas que o guitarrista faz quando as toca. Por baixo de tudo, os percussionistas construíam a alma da banda, uma dança malemolente de congas, timbales e outros tambores que tornaria-se item obrigatório para qualquer banda pop desde os anos 70. E o baixo de Brown segurava as duas partes juntas. Conhecidos em San Francisco, sua cidade-natal, como "a banda do Santana", o grupo não teve outra opção senão adotar o sobrenome do guitarrista como codinome de guerra. Juntos, os seis gravaram três discos históricos, antes de separarem-se. Os primeiros três discos deste senhor conjunto voltam a ser lançados em CD, com edições caprichadas e faixas extra.
Santana, de 1969, foi gravado logo após a lendária apresentação em Woodstock. Nome favorito do produtor Bill Graham, dono dos Fillmore East e West e uma espécie de gângster manipulador da cena hippie californiana no final dos anos 60, o grupo entrou naquele festival como azarão e simplesmente dominou a platéia com seu amálgama de sonoridades - filtrados pela percussão, ritmos latinos, africanos e americanos fundiam-se a um caminhar que misturava rock, funk e jazz e uma guitarra cheia de sentimento, que uns chamam de soul, outros de blues, outros ainda de latinidad. O primeiro disco do grupo foi gravado após a bem sucedida performance em Woodstock, criando uma certa expectativa. Graças a uma idéia de Graham, o disco provou-se vendável. Se o forte do grupo eram inacreditáveis improvisos coletivos, estas jams não conseguiriam vender o disco, por não tocarem em rádio. Adotando uma velha canção do blueseiro Sonny Henry, o Santana conseguiu capturar o ouvido público. Puxado por Evil Ways, mais de um milhão de ouvintes compraram o primeiro disco da banda, deslumbrados pelos delírios instrumentais de Jingo, Savor, Treat e, principalmente, Soul Sacrifice. A nova edição do disco conta com três faixas (Savor, Soul Sacrifice e a inédita Fried Heckbones) gravadas em Woodstock.
Com Abraxas, gravado e lançado em 1970, o grupo tirou de letra a síndrome do segundo disco. Apesar de toda a pressão, eles ainda se sentiam muito à vontade para fazer música. "De repente, éramos apenas uns moleques e quando você vê estamos em Nova York andando com Miles Davis e esses músicos incríveis, coexistindo com Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who", lembra Santana. As incursões musicais quilométricas que eram marca registrada do grupo aqui ganham corpo e consistência, atravessando com facilidade até por dentro dos dois hits do disco, Black Magic Woman, do guitarrista do Fleetwood Mac, Peter Green, e Oye Como Va, de Tito Puente. Mais preciso e calejado, os seis estão em ponto de bala em seu segundo disco. "É meu melhor álbum", lembra Gregg, "é difícil acreditar que fizemos aquilo. A gente tinha 22 anos!". Faixas como Incident at Neshabur (com uma deslumbrante segunda parte), Se A Cabo, El Nicoya e Samba Pa Ti formam alguns dos momentos mais fortes da música latina em território americano - e mais um milhão de discos vendidos. Os bônus desta edição vêm do londrino Royal Albert Hall, com versões para Se A Cabo e Black Magic Woman, além da então inédita Toussaint L’Overture.
O terceiro e último disco da fase clássica do guitarrista novamente chamou-se Santana, mas a história tratou de acrescentar o III no imaginário coletivo. Gravado em 1971, mostra a plena maturidade de um conjunto de músicos que aprendeu a tocar juntos, com um vínculo sonoro impressionante. Acrescente ao grupo o jovem guitarrista Neal Schon (perseguindo como segunda voz ou funcionando como um perfeito escada à técnica de Santana) e o percussionista Coke Escovedo. III traz a força de instrumentais poderosos (Batuka, Taboo, Guajira, Jungle Strut) e os hits da vez, Everybody’s Everything e No One to Depend On. As faixas de brinde do disco vêm de uma apresentação no Fillmore West, uma das últimas com a formação original. Apesar de Abraxas brilhar com mais intensidade, III mantém o nível técnico e emocional do disco anterior, num raro caso de identidade genética entre álbuns.
Aliás, entre os três. Os três primeiros discos de Santana não são apenas o auge de sua carreira, mas daqueles momentos difíceis em que todos os instrumentistas do mesmo grupo trabalham como um só organismo, sentindo a mesma energia e transmitindo-a intacta ao público, seja ao vivo ou em disco. Depois, Gregg sairia com Schon para formar o Journey e Carlos Santana passou a ter uma banda mais flexível com músicos que não durariam tanto tempo na formação. Aquele brilho original não se repetiria, mas está perfeitamente arquivado nestes três primeiros discos - os principais responsáveis pela aceitação da cultura latina perante o resto do mundo. Clássicos.
Alexandre Matias é um jornalista candango radicado em campinas e um cara pra lá de sangue bão a balde.
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