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O Almoço Por Renata Carvalho (recarv@tantofaz.net)
Rio de Janeiro, RJ


 

Estava chegando a hora em que seu marido viria para casa almoçar, e então retornaria todos os telefonemas que ela havia atendido, a maioria de acadêmicos chatos, professores de antropologia. Ana então rezaria uma Ave-Maria antes de começar a comer enquanto ele terminaria de discutir questões, momentos esses em que ela sentia uma ponta de orgulho por ser casada com homem tão inteligente.

Naturalmente, rezaria para si pois além de não querer atrapalhar o marido, sabia que ele achava que a religião "persistia num contexto de ignorância". Talvez sua lógica de extrema inteligência, aliada à prolixidade, tivesse feito com que Ana se apaixonasse quando ele foi seu professor. Esse mesmo amor a fez escolher o mesmo tema presente na vida dele para sua tese, que, lembra com desconforto, infelizmente não foi aprovada.

Mas quando casaram, ele lhe deu filhos. Ana sempre teve jeito com crianças e sua mãe costumava dizer que ela tinha nascido para isso, até para tentar apaziguar a sensação de imobilidade no tempo, causada pelo rumo que sua vida tomou. E que gerou o comentário maldoso de sua irmã que, se antes a classificava como intelectualóide, agora a considera uma frustrada dona-de-casa. Sabia disso; tinha sensibilidade para sentir essas coisas no ar.

No entanto isso não a atingia, pois conhecia uma grande lição, que é o movimento da natureza, onde descendência e aliança matrimonial são importantes. Não entendia por que às vezes todos pareciam ser tão intolerantes com ela. A começar pelo marido. Tudo bem que não tivessem casado na igreja, pois na época isso não lhes fazia sentido. Mas ainda queria oficializar a união, e gostaria que ele tivesse respeitado seu desejo inicial de usar alianças, mesmo dizendo que "era um ritual desnecessário para aqueles que conhecem seus papéis sociais".

Muitas vezes Ana se submeteu à sofisticação da vida que ele levava, e reprimiu a sua própria vivência. Através de seus argumentos, ele lhe negava os valores relativos ao amor, à família, à igreja, à humanidade…tudo era posto em dúvida. Era comum partirem para um bate-boca, que se antes terminava com o silêncio em que os dois entravam juntos na penumbra do quarto, agora termina com agressões cada vez mais violentas.

Brigam feito cão e gato, e muitas vezes ele virou um selvagem, um não-homem, e a fez se sentir menor do que uma formiga, um inseto. Ele a sacrificava sem piedade.

Dessa vez não teria tempo para rezar antes da refeição, pois precisaria pensar. Pensar sobre como seria a melhor maneira de convencê-lo de que ter um cachorro em casa era quase uma necessidade para as crianças, e aquele que encontraram perdido na rua seria perfeito para alegrar os meninos, era muito amigável.

Mas ele provavelmente falará que ter animais de estimação é uma "atitude primitiva", e que é o mesmo que comê-los. Ambas as ações são tabus; formas diferentes que o homem tem de lidar com a linguagem. Ela então não vai conseguir não perder a paciência com uma explicação sem nexo para uma questão simples: podemos ficar com o cachorro? Ele dirá que a zorra do mundo só se resolverá com soluções racionais, ao que ela, aos berros, vai dizer ironicamente: ainda que limitadas. Mas aí ele vai dizer: o que importa é que sejam as melhores.

Ana já estava antevendo a briga, onde ela provavelmente intercalará gargalhadas com acessos de fúria, onde todo o tipo de insulto virá à tona. E ele, com suas palavrinhas mágicas, a fará desistir de lutar, se retirando da mesa por ter perdido a batalha, com o rosto molhado e vermelho; sentindo-se burra por ter xingado tanto uma pessoa monolítica, sem brechas ou rachaduras, e por ter caído em todas as armadilhas por ele tão ardilosamente armadas.

Sim. Ainda dava tempo de pensar em algo. Dirigiu-se à cozinha onde provavelmente estaria o animal. Talvez fosse melhor não falar nada sobre isso, ainda mais porque o casamento não andava muito bem, isso era óbvio. E de repente, um estalo: ela descobriu o que fazer com o pobre do cachorro. Foi feliz fazer o almoço.

Renata Carvalho - é jornalista, colaboaradora do tantofaz.net e grande amiga do editor deste e-zine.


 
 
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