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I´ve got sunshine Por João Paulo Cuenca (jpvmc@hotmail.com)


 

Quando ela entrou na nossa sala as meninas patricinhas acharam aquela figura meio estranha. Muito magra, cabelos pretos e compridos, despenteados, meio jogados em cima da cara. Vez por outra ia com o mesmo macaquinho amarelo surrado que eu aprendi a adorar. Era bem pequena, parecia mais uma criança.
Ninguém prestava muita atenção nela por ali, não tinha um rosto clássico, não era corpulenta, não se pintava, não tinha nenhum dos atrativos para a maioria dos garotos do colégio.

Mas fazia teatro, sempre as mulheres que fazem teatro... E era mineira, sempre as mulheres mineiras...

Certa feita, posso lembrar com perfeição, chegou na aula de educação física com aquele rídiculo unforme azul marinho, um short longo, até a altura dos joelhos. Estava mais encorpada e com os molhados cabelos um pouco mais curtos. Os traços eram mezzo árabes, mezzo portugueses, nariz pronunciado, pele branquinha refletindo o sol.

Foi quando eu parei e rufaram os tambores.
O pátio do colégio era realmente bonito, a mata altântica adornava a quadra de futebol e a construção católica tinha lá sua imponência. Algumas árvores se perdiam pelo pátio onde fazíamos a aula, que de aula mesmo nada tinha: na maior parte do tempo jogávamos bola enquanto os professores davam em cima das alunas mais gostosas.

Ela realmente achava não ter nada a ver comigo. Garoto bobo, leitor inveterado de histórias em quadrinhos (nunca historinhas, por favor), passava as tardes vagabundeando com o pancho, desenhando e ouvindo brit-pop. Ela tinha amigos mais velhos, ela gostava do caetano, ela passava as tardes no parque lage com uma trupe teatral. Eu era um moleque com cabelo esquisito.

Talvez tenha me interessado pela personalidade aquariana, supostamente mais libertária que a minha. Ou pelo ar aéreo e descompromissado: tão diferente das outras meninas, ela realmente não parecia estar nem aí. Sentia que eu e ela eramos as únicas pessoas especiais naquele colégio. Talvez no mundo inteiro.

O certo é que em poucos dias não conseguia mais pensar em qualquer coisa que não contivesse ela. O meu travesseiro era um slide-show do seu rosto difuso, o som da sua voz invadia os meus ouvidos coercitivamente. Eu acordava e ia dormir com ela. Isso nunca tinha acontecido antes, não assim. Pancho não acreditava nisso, achava a menina chata e feia.

Discutíamos sobre isso e durante algum tempo ela foi o ideal de beleza na terra para os meus olhos, não importasse o que dissessem. Na hora do recreio eu ficava comendo maçãs na sacada, olhando para ela no pátio, voyeur apaixonado.

Mais do que paixão ou desejo, eu sentia ternura. Os seus modos desajeitados e ao mesmo tempo tão sedutores, a sua voz aguda demais, as suas roupas despretenciosas.. sei lá, aqulo me comoveu de uma forma que eu tinha só vontade de abraça-la e me perder nesse abraço. Sumir para algum lugar e me afogar no carinho que eu sentia.

As coisas começaram a fugir do controle e eu precisava fazer algo. Não fazia, ficava imaginando situações e suando frio quando ela chegava pra falar comigo. Durante um tempo desenvolvemos algum tipo de diálogo amigável que adoraria poder reproduzir, mas que desgraçadamente se perdeu no armário das minhas ex-memórias. Me lembro de tê-la levado em casa, depois de um churrasco. Subimos a enorme ladeira onde ficava sua casa, batendo papo. Conversávamos muito no recreio e ir ao colégio se tornou algo excitante, pela primeira vez desde as aulas da lindíssima profressora Siomara na sétima série.

Mal ou bem, estava me aproximando e algumas pessoas começaram a desconfiar que no brilho dos meus olhos havia alguma coisa a mais. Eu imaginava levá-la para o Tivoli Park, subir na roda-gigante e beijá-la no alto.

Como algo tão simples pode se tornar tão complexo?

Imaginei mil estratégias de conquistá-la, teria que ser algo especial, muto especial. Eu fui preciosista. Passei a considerar esse jogo a coisa mais importante da minha vida, o tipo de atitude tipicamente adolescente da qual talvez nunca me livre. Consegui o seu telefone, não sei como, e liguei pra sua casa duas vezes de tarde. Ela tinha um horário difícil, estava sempre nas aulas de teatro. Combinamos de ir caminhar na lagoa. Eu estava quase lá. Com as pernas tremulas encontrei com ela abaixo da ladeira Sacopã, na Fonte da Saudade.

Fomos andar e conversamos sobre mil coisas, ríamos um do outro, falávamos sobre nossas famílias, sobre como o nosso colégio era horrível, sobre como a maioria dos colegas da turma era idiota e sem estilo. Alguns flashes dessa tarde ainda pipocam na minha cabeça... em determinado momento ela perguntou se eu queria parar e tomar uma coca, sentar um pouco. Era uma deixa óbvia, ou não, sei lá, mas eu devia ter aproveitado e tê-la beijado ali mesmo, às margens da lagoa. O dia era lindo, ela era linda, tudo era perfeito até ali. Não sei se foi o pânico da primeira paixão ou excesso de vontade, mas o fato foi que eu nada fiz. Nada. Preferi planejar outro encontro mais sensacional, preferi ficar platônico.

Continuamos andando e levei-a para o Parque Lage, onde ela tinha que se encontrar com o grupo de teatro que tanto me enciumava. Na despedida nos demos as mãos e ela sorriu, falamos em nos encontrar novamente.

Talvez ela tenha cansado da minha indefinição e falta de ousadia. O fato é que se tornou meio antipática e fechou-se. Eu fiquei meio amargurado, ainda tentei sondá-la através de outra menina, mas não deu em nada. Ao que parece ela tinha perdido rapidamente o interesse em mim, se é que teve algum dia. Entrei numa fase maluca, sonhava com ela, escrevia coisas ridículas que nunca ninguém leu, ouvia Depeche Mode e o réquiem de Mozart sem parar.

Entrei numa de sair sozinho e pegar ônibus errado de propósito. Uma festa foi marcada no Parque Lage, algo relacionado ao grupo de Teatro, não me lembro. Ela não me chamou, mas eu convenci meus amigos a irem comigo e apareci por lá. A festa estava legal, eu estava apreensivo. Foi um erro, ela estava no habitat dela, com os amigos atores dela. Eu fui acompanhado de um séquito de babacas adolescentes (foi mal, pessoal).

Caía um toró infernal, que chegava a ofuscar a boa discotecagem do local, tamanho o barulho que as gotas faziam ao cair no lago que existe no centro da casa antiga. O Parque Lage à noite é sombrio, um ar meio estranho e bucólico, mas um ótimo lugar pra festas, infelizmente não muito aproveitado.

Essa noite tambén se ofuscou nas minhas memórias molhadas pelo álcool, mas em algum momento eu abordei-a. A sua reação não foi nem um pouco boa, perceptível pela frieza do seu rosto. Tive a impressão que ela estava ficando com outro cara, muito mais velho do que ela. Eu não falei nada, não tinha nada pra falar. Me humilhei, pedi um abraço, o que ela fez friamente. Acabou a história.

Eu tinha 15 ou 16 anos. Me lembro de estar bebendo minha primeira lata de cerveja, vendo a chuva pingar no lago enquanto o dj tocava Riders on the Storm. Perfeito.

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Paguei outros muitos papelões, típicos de um babaca apaixonado. Na verdade não sei se a minha tristeza era por não poder mais tê-la ou por sentir saudades daquele sentimento esperançoso que eu me acostumei a sentir. Essa situação veio a se repetir depois... é um se jogar pelo precipício apenas pra sentir o vento bater no rosto.

Depois quem ficou meio antipático com ela fui eu, achei que ela não precisava ter sido tão fria, não precisava ter me evitado como fez. Mas hoje não sei bem o que foi isso, talvez tenha ficado melindrada ou decepcionada comigo.

Acabei arrumando outras namoradas e paixões, umas mais bonitas, outras com um gosto musical melhor, outras ainda mais estilosas, mas sempre fiquei frustrado com essa história. Eu não sei exatamente onde ela está hoje, ao que parece está morando em Londres, estudando teatro.

Fazem sete anos que isso tudo aconteceu. Hoje eu gostaria de sair pra tomar um gim tônica com ela e agradecer a mulher que involuntáriamente me ensiou a beber e a me apaixonar.

ago/2000

João Paulo Cuenca , 22 anos, é carioca e guitarrista das bandas Netunos, Submarines e Os Cinzas, além de escritor e poeta ocasional


 
 
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