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Manu Chao 4x0 Lapa
por Marvio de Los Angeles (marviodosnajos@ig.com.br)

Bem, falemos de Manu Chao 4x0 Lapa, no Estádio da Fundição Progresso

Antes de chegar à Fundição, conhecia apenas um punhado de músicas de Manu Chao, nada de Mano Negra e a adoração de Matias Maxx. Na minha condição de careta convicto e nem um pouco hippie, fui com um pé atrás. Mas o pé à frente pedia mais músicas do tipo que tinha ouvido, como "Clandestino", "Desaparecido", "King of Bongo" e até a despretensiosinha "Minha Galera". O cantor gosta de futebol, me disseram; ele havia cantado com a camisa da Argélia no Free Jazz. Fui com a minha camisa do Real Madrid. Estava decidido a assumir-me latino.

A Fundição Progresso era um alçapão, uma Bombonera: camisas de clubes, muitos hispano-americanos eram perceptíveis. A multidão lotava o lugar, e parecia disposta a um jogo de futebol. Carlão me havia dito: Manu Chao no Free Jazz foi um partidaço. Que assim seja.

Chovia fino, como deveria chover em qualquer jogo noturno da Libertadores da América. E eu senti no ar que ia gostar daquilo antes mesmo de começar. Esforçava-me para lembrar das letras, queria ouvir mais. Senti até a falta do Matias Maxx para me doutrinar um pouco mais. Vítima de um hype? Não, nãoacho. Senão teria ido ao Free Jazz pagando 40 reais. Talvez de um hippie.

O show começa, e eu me sinto bem-vindo à Tijuana, ainda que com uma estranha sensação de que eu e muitos outros éramos clandestinos. A platéia gostou, mas o show merecia um público ainda mais eufórico, de sangue maisquente. Os brasileiros não somos um povo com uma identidade única. Não somos só latinos. Não somos só latinos e negros. Não somos só latinos, negros e índios. Somos até americanizados, somos tanta coisa junta num só povo que até podemos aceitar um convite à latinidade sem sermos tão latinos assim. Somos próximos e distantes de tudo, e isso tem seus prós e contras.

Talvez o pior contra ali fosse a ausência da língua espanhola. Falo espanhol, mas não queria meu espanhol pensado. Queria falar um espanhol que fosse tão natural quanto a alegria que senti naquele show supostamentepan-latino. Nunca gritar "por la carretera" (pela estrada) foi algo tão familiar para mim. Eu me imaginava no Maracanã, assistindo a um ataque do meu time, meu lateral recebendo a bola sem impedimento na intermediária, correndo, sendo caçado pelos zagueiros e eu gritando "Por la carretera!!!Por la carretera!!!", como quem um dia gritou "Corre, corre, filho da puta!!!".

O show foi excelente. Há muito tempo não via uma banda tão vibrante, tão feliz. Eu fiquei feliz. Eu era tão latino quanto os argentinos, osuruguaios e os espanhóis que vi. Musicalmente, a banda pode até ser confundida com uma banda de axé (é engraçado, a figura do Manu Chao me lembrou a do Durval do Asa de Águia, e a mistura de reggae e ska é bem"levanta as mãozinhas e tira o pé no chão"), com a diferença de que você não ouve imbecilidades monossilábicas. O que se ouve são excelentes letras manifestações de latinidade dignas de um estádio. "Arriba la luna, o-e-a!"é coisa pra ser cantada quando seu time dá aquele show de bola de 4x0 numa noite chuvosa. Ou para ser berrada quando Manu Chao e seus "coyotes" ensinam aosbrasileiros que somos hermanos em algum ponto da História, que música animada não precisa ser idiota, e que somos o país do futebol, mas não ganharíamos uma Copa do Mundo das Torcidas nem a pau.

MARVIO DE LOS ANGELES (marviodosnajos@ig.com.br) es periodista de deportes y aficionado del Manu Chao F.C.

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