|
Clandestina
por Lia Amancio (lia_am@bol.com.br)
Depois de passar por uma intoxicação alimentar seguida de uma crise de mau-humor, tudo o que eu precisava era de rock. Esse mesmo rock que me curou de gripes ao invés do recomendado descanso, o mesmo rock que me mandou para São Paulo algumas vezes atrás de diversão, e que eu não acreditava que fosse encontrar num show de, a-ham, música latina.
Pelas amostras na Net, achei que não tivesse perdido muita coisa no show do Free Jazz. Contudo, resolvi dar ouvidos ao Matias e à Bel, minha amiga forrozeira enrustida, e dei um crédito ao simpático Manu Chao. Afinal, ele teve a maior importância em minha formação musical, sob a alcunha de Oscar Tramor. E Oscar Tramor merece respeito, apesar daquele “po-po-po-po” hippie de “Minha Galera”. Deixei a roupa de indie-punk-retro-pop no armário e fui à Fundição conferir o que era aquilo de que todo mundo falava.
A primeira conclusão foi a de que show em lugar aberto, com chuva e lotado não tem erro: é diversão garantida. A segunda foi a de que depois que você se perde das pessoas com quem você combinou de voltar para sua cidade, não resta outra alternativa senão relaxar e gozar. E, bem, se não gozei, foi quase.
O espetáculo começou com um maracatu que vinha lá de trás e ia chegando pelo meio da platéia, e aquela chuvinha fina e aquele “meu maracatu é da coroa imperial” que me lembrou da infância querida e das festas com coquinho na escola, e quem sabia cantava junto - e eu sabia! - e mesmo sem enxergar nada ali no meio da multidão, o sorriso bobo, pasmo e um pouco ingênuo não saía do rosto.
Não sei se era a ansiedade ou o cansaço por estar de pé desde as 19h, mas achei aquele hip hop cor-de-rosa bastante inexpressivo. As letras não me disseram nada de novo, as músicas idem, dizem que a menina era a namorada brasileira do Manu Chao mas eu não confirmo (depois descobri que ela é que é a “minha Valéria” da música!). Mas tudo bem, achei dois amigões vestidos de Real Madrid e suas respectivas, e a boa companhia dos quatro acabou virando um bom passatempo para aquela quase tortura.
Enfim, Manu Chao. Não anotei setlist. Aliás, não conhecia metade das músicas. No comprendo el español, achei que fosse ter mais coisa em francês. E nem podia colocar os óculos por causa da chuva, não iria adiantar nada. E, inexplicavelmente, enxergar embaçado deixou de ser problema: difícil foi controlar a mochilinha Adidas batendo na senhora atrás de mim, de tanto que eu não parava de pular.
Gente, o que foram aqueles malabaristas com as tochas, a Intrépida Trupe dando o ar de sua graça, numa participação mais do que especial? Me senti uma criança num circo, não acreditava no que estava vendo. Durante o show, todo aquele povo cantando junto, aquele axé todo (sem sacanagem, era calor humano e energia boa saindo ali da Fundição), todos se divertindo e curtindo a chuva e espremidos como sardinhas em lata, o meu amigo Márvio a poucos centímetros da minha frente, possuído por uma latinidad creio que incontrolável e um pique de torcedor fanático de futebol, e só aí comecei a entender o que aquele francesinho simpático fazia lá em cima do palco, e o que ele fazia com a multidão. Mas aí já era meio tarde, quase no bis, e foi em “King Kong Five” que a ficha caiu, e me peguei quicando, quase sem encostar o All Star já enlameado no chão, tocando guitarra no ar, me esgoelando de cantar junto e feliz da vida porque esse show era o que faltava para fechar 2000 com chave de ouro: não acredito que até o fim do ano alguém consiga fazer um show de rrrrock bom e animador como esse.
Lia Amancio (lia_am@bol.com.br) é nossa querida Mademoseille La Conga e clone de Sandra Dee.
Clique Para Mais Manu Chao
|
 |
 |
 |

|