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MARCELO D2



MANU CHAO
fotos e entrevista



Fred 04:
Desafiando Roma



Leitura Alucinógena

Buscando el Desaparecido
por Matias Maxx (matias@cucaracha.com.br)

"Eu tenho uma vantajem, se me sacan la gorra ninguem me reconhece."

Manu Chao é um cara com muitas raízes e gostos musicais, mas se lhe perguntarem sobre world music ele responde que isso é apenas mais um rótulo, "os artistas são africanos mas as gravadoras são inglesas ou norte americanas (...) AC/DC é World Music, é música da Austrália"...

Hoje perguntei pra Manu se em suas viagens ele encontra muitos artistas com influência do Mano Negra graças às suas turnês. Ele me disse que sim, mas que na verdade o Mano Negra não influenciou essas obras, ela apenas serviu para despertar essas pessoas. É que eu conheço muita gente assim, e seja no Rio de Janeiro, seja no México, as turnês do Mano Negra sempre me foram descritas como meteóricas e arrasadoras.

Em seu disco solo o Muro de Tijuana, o terror exôdo rural, a calmaria de Santa Tereza, o racismo na Europa e a preucupação com a questão ambiental são custurados em suas aventuras e histórias de amor, ora apaixonadas ora amargurantes. O Global e o pessoal. Samplers, citações, repetições e neologisomos ("Malegría, la tristeza que se combate con la sonrisa")... Ouvir esses temas hipnóticos e ecoantes inúmeras vezes desde 1998 despertou uma gigante identificação de maneira que em Maio deste ano ao senti-me obrigado a comparecer a primeira turnê de "Clandestino" pela América Latina (na qual o brasil ficou de fora).

Essa turnê pelo "continente perdido" encerrava-se num sábado na pequena cidade de Rosário, a duas horas de Buenos Aires. Parte de minha família veio da Argentina, já tinha ido lá umas vezes, aprendi espanhol com meu avô, logo saco toda a manha da malandragem de velha guarda de lá, não ia ser uma viagem difícil. E não foi.

Clandestino é sobre isso, é sobre estar viajando e sempre ser local. O mundo está cada vez menor e mais louco, ganha quem souber driblar-se melhor. Consultei a Internet e descobri que os ingressos estavam esgotados. Entrei em contato com a Virgin Recs e não aidantou muito (os caras tavam enrolados na época... sei lá), entei em contato com a gravadora gringa e nada... Na semana do show tomei um porre na "Maldita" e resolvi ir assim mesmo. Seis horas de avião, quatro no ar e dois mofando em escalas e finalmente... Rosário... uma Buenos Aires em minatura que vista de cima parece uma batalha naval.

o Show rolaria num galpão e as três mil entradas postas a venda a sete pesos (uns 12 contos) estavam esgotadas, a produção era da aliança francesa e da secretaria de cultura. Ligo pra aliança, digo que sou jornalista brasileiro e queria infor.... "entradas esgotadas!" ... na cara! Faço umas vinte ligações e chego a Horacio Ríos, o secretario de cultura de rosário, falo que sou fotógrafo e que tinha vindo do Brasil para fotografar esse show. O cara disse que me credenciaria se minha redação enviasse um pedido via fax. Antes de viajar eu tinha acertado uam matéria com o povo do Rio Fanzine do Jornal o Globo, mas não achei os caras nem na redação nem em casa. Ligo pra showbizz, até então só tinha deixado recados lá. Liguei e fui logo dizendo que tava na Argentina com tudo certo pra fotografar o show e tentar entrevistar o cara mas que só precisava um fax dele, lembro-me de ouvir o cara abaixar o telefone e gritar pra sua galera (carinhosamente batizada de "racinha") algo como: "Tem um cara na Argentina que vai entrevistar o Manu Chao pra gente".

Ai foi aquela coisa. Cheguei na secretaria de cultura no dia seguinte e cheguei a tempo de ver o tal Horácio expulsando dois garotos de sua sala, ele tinham mais ou menos minha idade, calças largas mais ou menos como as minhas e como eu, traziam mochilas nas costas. Eram zineiros e estavam querendo credenciais, e foram ignorados pelo estado... Já para o Maxx, o cara ofereceu mate, trocou idéia, disse que a mãe dele também era urugaia e acabou revelando o nome do hotel aonde tava o cara. E me avisou que Manu era "un chico complicado con la prensa..."

No dia seguinte uma surpresa, o show fora transferido para o anfiteatro municipal, um puta lugar num pico que parecia o aterro do flamengo só que do lado do rio. Frio pra cacete. Consegui um telefone lá e conversei com alguém da produção. Descobri que iria rolar uma coletiva, marcada em cima da hora no hotel. Foi foda, dúzias e dúzias de fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas, fãs e outras criaturas tipicas. Uma assessora de imprensa com margarida costurada na calça jeans que gostou de mim e presenteou-me com uma cópia de "clandestino". Uma porteña relinda de mechas e roupas coloridas, ela tinha vindo com o dinheiro e bancou a cerveja fazendo malabares com fogo nos sinais de trânsito, foi ela quem "salvou-me" antes do show (mó perrengue conseguir bagulho naquele frio).

A coletiva de uma hora e meia foi maravlhosa, fãs sairam felizes por não terem se decepcionado em momento algum e quem não conhecia o cara saiu apaixonado. Depois de uma hora e meia de charla, rodeando temas políticos, Manu disse que no fundo no fundo queria estar tomando um submarino, e apresentou dois ex-jornalistas do jornal "El Ciudadano" que recentemente demitira 140 funcionários para ler um manifesto.

Mais tarde, três horas de música sem parar. O lugar de onde fotografava era péssimo, mas consegui registrar Manu sendo tomado por um, dois, três dúzias de fãs que só desceram do palco depois que a platéia puxou um "que se bajen! que se bajen!". Hoje rolou a coletiva do Manu Chao no Rio, num barulhento e hypado Nova Capela, emocionante mas não tão panletária quanto a Rosarina. Manu lamentou estar num festival que não permite um show muito grande, mas disse que o show da Radio Bemba (a banda de Manu) começa quando o avião aterrisa e prossegue até a decolagem do vôo de volta.

Eu asseguro, não é mentira! Após a coletiva, a Rádio Bemba levou som num boteco próximo e foi biritar no "Sinuca da Lapa". Em Rosário, logo depois do show, parte da Rádio Bemba ficou levando cantigas francesas no meio da platéia. No final do show, conheci Patrizia, uma jornalista Porteña que pretendia pegar o trem das seis da manhã de volta para Buenos Aires, depois de assitir o show extra da Radio Bemba e trocar idéia com um Zineiro (do Pinhead). Fomos prum Pub, e depois pra uma confeteria, emborrachar-nos cara a cara do lado de uma vitrine com vista para a pitoresca calle. Lá pelas cinco da manhã quando estavamos só nós dois, as cadeiras de ponta-cabeça e as pilhas de garrafa de Quilmes de um litro escutamos um barulho no vidro. Era um Manu Chao voltando da night descabelado mandando um saludo... É claro que não teve mais papo...

Diferente de Rosário onde condenou Pinochet, criticou a super exposição do caso do Menino Elian e chamou a dolarização da economia latino-americana de estupro, aqui ele ficou mais em cima das gravadoras. Disse que se existe Napster (que ele afirmou usar muito) e uma indústria de pirataria, a culpa é das gravadoras.

Chao curte um mistério, semana passada Marcelo Yukka me disse que havia estado com Manu em Barcelona, e que para encontrá-lo teve de passar por vários intermediários. Um dos integrantes da Radio Bemba (além de Manu) me reconheceu, é o trombonista Venezuelano. Droga! Como fui esquecer seu nome!? Ele disse que ia entrar no site. Manu não quis dizer nada sobre o show, nem sobre os boatos de shows extras (até agora confirmado mesmo só o show de Recife). Disse que as coisas se desenrolariam naturalmente.

Em Rosário foram três horas continuas. Com pausas para a transmissão de um discurso da EZLN, para o manifesto dos desempregados do "El Ciudadano" ("...pobre rosário... condenada a la mediocridad del monopolio de la comunicacion..."), para uma montagem de samplers dos discos do Mano Negra e de Manu Chao. O Show por si é uma colagem de Loops, improvisações, jams, refrões, gritos de guerra, citações, músicas do Casa Babylon, Músicas de Clandestino... O Ritmo? No importa...

O tom às vezes melancólico de "Clandestino" tem uma justificativa: tratava-se de um disco de despedida, Manu pretendia despedir-se da vida musical e ir dedicar-se a outras atividades artistícas como a Feira de Las Mentiras. Mas a repercurssão e o bafafá em torno do disco (que já vendeu mais de 2 milhões de cópias em todo o mundo) motivaram-o a voltar a fazer turnês. E finalmente temos Manu no Brasil. Depois daqui a Radio Bemba aterrisa em outros paises latino-americanos e encerra a turnê com dois shows em terras yankes, aonde o objetivo não é o público anglo, e sim o publico latinoamericano (o público cucaracha) que está cada vez mais tomando o pais. Manu disse que na época da Mano Negra eles evitavam os Estados Unidos pois não gostavam de sua forma de trabalhar a música. Mas agora eles tem de aproveitar que os EUA estão, começando a ver o valor da música latina, e isso vê-se no fenômeno Ricky Martin. "Só que até agora a unica musica latina que está acontecendo é a música latina de merda". Mas pouco a pouco o jogo vai virando, mas até lá, Manu garante que já está em outra. Sempre inventando moda...

Depois do show conheci um rapaz que trabalhava no aeroporto e que tinha descarregado o equipamento do Manu Chao, que presenteou o garoto com ingressos... Ele conhecia a Showbizz que brasileiros esqueciam nas poltronas do avião e tinha um disco do Mano Negra em casa. No dia seguinte ele carregou a minha mala, eu procurei desesperadamente o CD que tinha ganho da assessora de imprensa... mas ele estava enterrado em meio a roupas sujas... viajar por pouco tempo é foda!!

Matias Maxx (matias@cucaracha.com.br) é fotógrafo, web-developer e editor deste zineiro. Parcialmente zumbi também.

Clique Para Mais Manu Chao

Sobrexposição (acidental) de Manu Chao em entrevista e Show -- por Maxx

"é muito, muito fácil chegar numa platéia fria e mandar um: "Viva Chiapas" para levantar o ânimo da gente. Isso é moleza, muitas bandas o fazem, mas tem que ser consciente com o que se diz não?

Se eu chegar a um ponto de depender de marketing para vender um disco eu vou procurar outra coisa para fazer, pois tenho milhares de outros projetos artísticos não-musicais."

Manu Chao

 
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