1. Dormindo com o rádio ligado
Fui pra lagoa onde nunca me incomodei de mergulhar, plástico contínuo imitando o céu, onde eu mexia desfazia-se e depois voltava a ser plástico. Por enquanto eu pudesse ver o fundo da lagoa o banho ainda continuaria saudável. Mas nos últimos anos diziam que aquela água podia me matar de 1000 maneiras diferentes e eu me tornei resistente a todas elas.
Sentei na beira do caos balançando para frente e para trás e ele sentou do meu lado, segurou o meu rosto com as mãos em concha, soprou uma nuvem e me contou este segredo: "todo dia 2 de cada mês eu sonho com você."
Puxei uma cadeira de praia e fiquei olhado uns anjinhos se desfazedo das asas. Grandes expectativas, e um vôo longo refletido na água encerrou o sonho. Muito mais do que eu tinha pedido. Ela bateu os braços em natação elisregínica, no ar, ainda me deu um abraço e me deixou no chão. Só me ocorreu: pintor, não respinga corvos na pintura azul. Era você que pagava contas de bar com rabiscos no guardanapo? (ai Jesus, me ama enquanto eu tô acordada e enquanto tô apagada também. Além disso: não me deixa ter sonhos feios).
2. Os dentes do cavalo
Era o tipo de cara que envergonhava o seu sexo e, quando caprichava muito na maldade, envergonhava toda a espécie. Era uma mulher que deixava outras mulheres envergonhadas por serem desbotadas e, portanto, quase invisíveis. Como acontece geralmente nesses casos, ela quis ele. Das histórias bem pequenas que contei pra você, esta é a mais cruel.
3. Augusto e Fei
Na típica entrada estreita com pouca luz, um balcão espelhado e a cabeça da funcionária displicente cobrindo, em parte, uma pintura cujo autor preferiu permanecer anônimo. A lâmpada vermelha sobre o quadro acendeu e a mulher indicou a porta ao lado do balcão. Só havia um enfermeiro por turno para tomar o sangue de toda a clientela, o que causava uma constrangedora fila de espera nos dias mais movimentados. Entraram juntos. Sentado, Augusto dobrou a manga da camisa e ofereceu o braço esquerdo para uma rápida picada. Em seguida, o enfermeiro apertou com a borracha o braço nu de Fei. Jogou fora a agulha que utilizara em Augusto e rasgou um invólucro de onde retirou outra nova, cada gesto executado largamente no ar como em um show de mágica. Furou a moça e, cinco minutos depois, eram liberados com seus respectivos envelopes. Alguns preferiam ir dali para casa, ou qualquer outro lugar, e poupar os R$500,00 de um quarto, mas Augusto tinha que pagar por sua privacidade. Subiram no elevador enquanto um ansioso casal fantasiado de coelhinhos chegava à saleta.
- Na França eles já têm isso desde 2004. Mas aqui tudo chega com atraso, né? Fei riu do Brasil e para Augusto de uma vez só.
- Não sei. É?
- Há quanto tempo você mora aqui?
- Desde 16 anos.
- Quantos anos você tem?
Tinha 16. O elevador parou e Augusto saiu primeiro, brincando com a chave no bolso. Fei o seguia de perto, estudando na penumbra o desenho de fios de cabelo desalinhados sobre a nuca do menino. Cada um fazia o que bem entendia e estava tudo bem se a polícia não aparecesse. Ele abriu a porta e acendeu a luz para ver seu resultado.
- And the winner is... fingiu pompa suspendendo o papel dobrado. Jogando-se na cama, leu: Limpo. Limpíssimo. Agora você.
Fei olhou seu próprio papel com pouco interesse porque já o antecipava bom. Usava proteção sempre ou fazia o teste-rápido que virava rotina no mundo três anos depois de ser criado na Holanda. O problema era o que fazer com o garoto. E ele parecia um gato enxergando fantasmas que ninguém mais via.
Fei o encarava incrédula e decepcionada. Ainda quis uma investigação:
- Teu ciso já nasceu?
Augusto foi até a geladeira e abriu um vinho azedo, arrependido de largar o baile, tava tão bom o baile...
4. Batismo Arpoador
Dentro de um silêncio plácido, reconheceu uma centena de sonhos que um dia tivera com o mar. Sentiu-se parte de um organismo quente, cuja extensão não podia definir, fluía sem fardo nem adeus. "Eu nunca me preocupo", disse pro santo. Repetiu o mesmo pro seu personal enquanto se atirava às ondas com uma prancha larga, ao campeonato de surf no 1987 de sua cabeça. Ergueu-se da água buscando o ar, tonto, cuspindo e tossindo.
5. The Motta Story
Peraí. Um momento. Ah, lembrei. Ele não pensava mais. A cabeça vagava entre imagens automáticas, o filme de todas as pessoas que conhecia e de quem sentia falta. Não era raciocínio. Có Silva recebera de Motta três mirréis para matar Xi Clete, um menino de rua que roubava garrafas de leite pela manhã do alpendre das casas do bairro.
Có Silva era marido de sua mulher e pai de filho nenhum. Saiu determinado a assassinar Xi mas não conseguiu. O moleque deu-lhe uma rasteira e Có caiu no chão. Todo sujo e derrotado, tomou um porre e dormiu na sarjeta. Quando bateu na porta de casa novamente, sua mulher recusou-se a abrir: "bêbado sujo na minha casa num entra não!" Có morreu de inanição na rua e Motta, mandante do crime que não aconteceu, casou-se com a viúva, adotando Xi Clete. Fim da história. Ciao.
Cecilia Gianneti tem batismo em terreiro e samba no pé.