³It is a style of journalism based on William Faulkner´s idea that the best fiction is far more true than any kind of of journalism and the best journalists have always known this.² Nossa, uau, vixe, ´brigada Hunter, isso torna as coisas muito mais simples entre editores e jornalistas no Brasil. Ou (experimenta essa na PUC) entre alunos e professores de jornalismo.
resposta a email de leitora
e-mail da an-a:
At 15:42 17/01/02 -0200, you wrote:
(...) acrescento que me foi útil entender melhor
do que se trata jornalismo gonzo (já tinha visto o filme
fear and loathing, mas nunca parei pra pensar que era
sobre jornalismo que eles tavam falando. Pra mim era mais
só Johnny Depp e Benício Del Toro pirando - o que não
deixa de ser...) já que jornalismo sempre significou pra
mim mais ou menos a mesma coisa que engodo.
Beijos,
agora eu respondo mega mega loco thing:
é verdade que o hunter thompson pirou muito pra escrever o fear and loathing in las vegas, que deu origem ao filme do terry gilliam; raoul duke (johnny depp) é seu alterego na história, ou uma boa identidade falsa pra se dar calote por aí. mas tem mais coisa.
o personagem do benicio del toro tb existiu: oscar zeta acosta era advogado de hunter, um porra louca em vários sentidos, assim como na total ausência de sentido. de qualquer maneira, sabe-se que desapareceu sem deixar rastro, na década de 70, no méxico. segundo o *meu* oscar (ok, a referência não é exatamente precisa... eu poderia tentar ler umas biografias por aí), ele tinha ido atrás de uns que tais religiosos mutcho locos e nunca mais se ouviu falar dele.
tinha bastante gente graúda na cola do advogado. ele tendia a escolher causas polêmicas, as tradicionais rabudas: no início da década de 70, em plena ressaca de toda a doideira dos 60´s - tem uma cena sobre a rebarba flower power no filme, em que hunter fala da marca da água "onde a onda finalmente quebrou e rolou de volta" -, cuidava do caso do assassinato de um jornalista cucaracha (ou "mexican-american", no jargão p.c.) do los angeles times chamado ruben salazar, crime *by* LA poliça, uma coisa bem sangrenta - o cara bebendo sua cerveja num bar, recebe uma bomba arremessada por um poliça e morre ali mesmo, metade da cabeça! BUM!, com testemunhas e o caralho e claro que todo mundo tenta acobertar os culpados.
foi metendo-se em casos deste naipe que oscar cavou sua extensa ficha no FBI, CIA e o que mais houver nesta linha. ele estava virando um militante bastante presente na comunidade chicana, o que não era necessariamente um bálsamo pra saúde dele, já caquética com úlceras e quejandos.
hunter foi pra los angeles investigar o assassinato de salazar junto com o amigo. e é aí que começa o fear and loathing in las vegas: hunter, americanão branquelo, gabacho, acompanhava o amigo que, àquela altura, tinha que andar cercado de seguranças, e viviam os dois com o cu na mão, com medo da polícia e dos próprios chicanos. a juventude do principal bairro chicano tinha surtado e andava queimando carros e saqueando lojas desde que a polícia tirara o corpo fora do assassinato e andava descendo-lhe o cacete nas ruas. ser branquelo e americano tornava hunter um inimigo dos chicanos. ser amigo de oscar o tornava um inimigo da polícia, que já tinha demonstrado que não tava de brincadeira.
aí rolou o clássico telefonema da sports illustrated: um amigo de hunter na redação queria que ele cobrisse um rally de motocicletas em las vegas. com tudo pago. só pelo fim de semana. hunter convenceu oscar a ir junto, já que, afastados de los angeles, teriam alguma paz e segurança para avaliar o que tinham conseguido até então nas investigações sobre salazar. era isso. entrar no carro com apenas uma fita, "let it bleed", dos stones (tão adequado), e dirigir pra vegas.
"fear and loathing in las vegas é uma experiência fracassada de jornalismo gonzo. minha idéia era comprar um caderno bem grosso e registrar tudo ali, conforme fosse acontecendo, e aí enviar o caderno pra publicar - sem edição. desse jeito, eu senti, o olho e a mente do jornalista funcionariam como uma câmera. a escrita seria necessariamente interpretativa - mas uma vez que a imagem estivesse escrita, as palavras seriam finais (...)"
essa é a explicação de hunter pro estilo do livro.
lembra do filme, quando o advogado pega um avião e deixa o hunter no hotel com uma conta sinistra que ele não tinha dinheiro pra pagar? esta parte não é ficção. o cara ficou 36 horas seguidas trancado no quarto tentando imaginar uma maneira de sair dali, completamente paranóico, e SEM DINHEIRO. imagina, outro dia eu surtei pq achei que tinha perdido minha carteira numa festa e não podia pagar uma parada que tinha pedido, um lanche. imagina uma conta de hotel de DIAS? aí o hunter ficou lá, surtando e escrevendo sobre essa situação que parecia insolúvel e esta é a gênese do fear and loathing, que ele escrevia também de madrugada num hotel da califórnia, quando ele deixava de lado a reportagem de salazar. foi jann wenner, editor da rolling stone naquela época, que decidiu publicar fear and loathing in las vegas na revista, depois de ler umas vinte páginas.
como hunter conseguiu 1) investigar 2) tomar notas 3) conseguir guardar as notas (ok, tinha um gravador..., mas ainda assim...) 4) sobreviver às drogas e à polícia... e ainda produzir reportagem E um livro de semi-ficção nessa doideira toda, bem, só o bom Deus sabe dizer. acho ótimo; mas sou natureba e não vou cheirar loló pra fazer matéria alguma, a não ser uma dessas tipo defesa do consumidor, agora que a loló está liberada, não sei, alguém pode sugerir esta pauta, e bem dito seja, fazer um ou dois focas experimentarem pra dizer qual a melhor. mas "a revolução tá no conteúdo, mais que na forma", como diria o careta - comparativamente - tom wolfe, e definitivamente não se pode emular o gonzo. é coisa de hunter.
Cecilia Gianneti (ceciliagiannetti@uol.com.br) tem batismo em terreiro e samba no pé.