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Leitura Alucinógena

Ficar ou não ficar
Por Cecilia Gianneti


Ganhei anteontem, do meu orientador, este livro do Tom Wolfe, depois de encarar uma aula virada, sem dormir, nada, nadinha. Recapitulando: é aquela aula em que a professora-bolsista disse estar deverasmente cansada. E, se ela estava deverasmente cansada, eu tava zureta por causa das duas lâmpadas vermelhas acesas no laboratório (sim, o laboratório existe... mas onde ele andava esses anos todos? E temos que comprar todo o material usado para revelação e ampliações) e quando peguei o livro e olhei a capa preta com letras brancas e o rótulo vermelho à direita, fiquei bem acordada como se tivesse dormido por 18 horas ou tomado um litro de café forte (sim, café; metáforas com cocaína são coisa de muito mau gosto e isto é um blógui de família, saudável e natureba): tem um capítulo inteiro dedicado a esculhambar o estilo embalsamado de jornalismo.

³Wolfe mandou às favas esse modernismo, que, de resto, já tem barbas, de tão velho.² Isso é do prefácio do Paulo Francis para ³Fogueira das Vaidades², em 1988; um escroque prefaciando outro (escroque a gente diz assim, da maneira mais amável possível).

³Nenhum filme ou jornal de televisão tem, ou seguiu remotamente, o alcance desta obra. Wolfe, 57 anos, nos eu primeiro romance, restabeleceu a primazia da literatura sobre outros meios de comunicação.² Isso foi escrito em 1988 pelo Paulo Francis, e não tem a ver diretamente com o ³Ficar ou não ficar², que é uma coletânea de ensaios, ficção e reportagem de Tom Picareta Wolfe (picareta a gente diz da maneira mais carinhosa possível), um dos criadores, na década de 60, do New Journalism, ³em que reportagens com apuração meticulosa ganham tratamento literário² (rá, livros inteiros tentam definir o New Journalism e aí chega um release xexelento querendo explicar a coisa toda em uma frase). É no capítulo chamado ³O Caso New Yorker² que Wolfe discute a contribuição do jornalismo para a literatura, zoando deliberadamente ­ mas com respaldo e material muito bem investigado - a revista criada por Harold Ross (maluco da turma do Hotel Algonquim, que todo mundo deve conhecer daquele filme ³O Círculo do Vício² ­ quem não conhece, alugue: tem no elenco e é produzido pelo Robert Altman) nos anos 20 e que a partir de década de 40 teria se tornado um museu, passando a reproduzir cacoetes de bons escritores de sua primeira equipe.

Émile Zola, combinar antropologia, memórias, ficção, história e reportagem propriamente dita ­ como os defensores do jornalismo literário; Wolfe acha que esta é a saída pras lacunas deixadas, nem tão paradoxalmente assim, pela saturação/excesso de informação no século apressado. Mark Kramer, editor do ³Literary Journalism ­ a New Collection of The Best American Non-Fiction², aquele livrão com perfis e reportagens dos maiores nomes do gênero norte-americano, ele diz que o jornalismo literário é a forma mais adequada para ajudar na compreensão de uma nova complexidade. ³(o leitor) não pede apenas informação, mas visões de como as coisas podem se encaixar² quando a centralização acaba. ³Presidentes, padres, generais a cavalo, professores em torres de marfim ­ ninguém pode comandar a fé coletiva hoje em dia², escreveu Kramer. Nem o jornalismo mais prafrentex do universo pode, bicho, mas a questão não é a avant-guard ou a reta-guard, a questão é a verdade. A construção típica do texto de Jornalismo Literário permite fazer com que o estilo e a narrativa, associadas a elementos de ficção, sirvam para responder da melhor maneira à sua questão fundamental: o que está acontecendo?

Quando você fizer monografia de jornaleirismo, pensa nesse tema, no No., na revista Senhor, na revista Realidade, na CartaCapital, no Hunter Thompson, em Gay Talese (já leu Sinatra has a cold? e em como um texto sem vida só serve pra gente guardar sem ler, como aquelas edições especiais sobre a guerra. ³Todos nós compramos esse tijolaços mas nem lemos a notícia nem jogamos fora o jornal. Enfiamos o troço na prateleira e preservamos aquilo ali como se fosse uma cápsula do tempo, de mudança em mudança, agarrados àquele documento sobre a nossa época.²

Por que é tão importante que a gente dissemine esse estilo, que mais e mais matérias apareçam com essa cara por aí? Eu tenho que responder isso na conclusão da minha monografia e confesso que não tenho muita coisa adiantada neste sentido mas por enquanto a gente sabe que odeia a Veja e todo esse formato e que a vida não-idealizada pelo jornalismo literário mostra as diferenças entre as pessoas, fragilidade, maldade, gentileza, vaidade, generosidade, pomposidade, humildade, tudo que o padrão de jornalismo veta.

Enquanto o repórter comum aprende a guardar pra si sua opinião sobre o que relata , assim como suas reações diante dos fatos, Mark Kramer, o cara do livrão que você vai acabar procurando na biblioteca da faculdade quando um professor ou outro faltar, explica que a voz íntima a que se refere é a voz da pessoa nua e o estilo tem que ser claro e econômico. Sem o abrigo burocrático do jornalismo convencional, surge a voz de alguém que passou por uma experiência e relata cada viez da mesma, desde os momentos do trabalho em que houve dúvidas, medo, engano, tristeza, excitação, fúria, mau-humor, até a reflexão. Essa voz é a força do jornalismo literário.

A escrita acadêmica e noticiosa, impessoal e objetiva, visa a mostrar ao leitor os fatos. Mas as suas restrições à opinião do autor acabam por esconder grandes fatias da realidade do fato. A linguagem formal protege tabus, aparências e ³verdades oficiais². A voz íntima seria uma maneira de derrubar essa proteção. Para Kramer, a voz íntima mostra as pessoas e as instituições como elas são.

Antes de se formar você pode ­ deve ­ escrever também. Por aí, não só pra você. Faz umas matérias pro Cucaracha, tamos precisando de material pra atualizar o site toda semana com matérias diferentes que digam alguma coisa que o jornal não tá dizendo ou que não sai nas revistas especializadas em música brasileiras (talvez porque não temos mais revistas de música no Brasil...).

Não te prometemos nada, mas também não comprometemos teu texto. Ninguém vai embalsamar você num manual de redação e - bendita internerd ­ você vai poder escrever o quanto quiser. Tá brabo pra quem tá começando, tá brabo pra quem tá aí há algum tempo. Se você não gosta do Cucaracha, ou acha que ele não tem o seu perfil, tenta outro espaço. O Spam Zine e o London Burning sempre recebem bem escritores, críticos e dublês de repórter novos ou nem tão novos assim, em busca de uma brecha (opa) alternativa.

When the going gets weird, the weird turn pro. E ser pro não tem a ver com carteira assinada e diploma ou rodar bolsa. Melhor escrever de graça o que se quer do que levar calote escrevendo o que não quer.

Cecilia Gianneti (ceciliagiannetti@uol.com.br) tem batismo em terreiro e samba no pé.


 
 
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